DEIXE-ME RIR, HOMO VIDENS!

Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez me faz companhia. (O narrador em A hora da estrela, de Clarice Lispector)

É verdade: às vezes, temos vontade de estapear as pessoas, numa tentativa de fazê-las acordarem dos mundinhos medíocres e banais onde vivem. Temos vontade de sacudi-las e obrigá-las a serem mais perspicazes. É quando nos damos conta de que a vida é assim, cheia de gente nojenta e plastificada, que nem mesmo o mais talentoso do cinismo ácido consegue alcançá-la.

Colocamo-nos de pé, diante do espelho, e nos transformamos em pequenas memórias póstumas, atacando tudo que procede do homem, sobretudo do homem natural. Não suportamos aquelas gentes de sorrisos forçados, olhares indiscretos e gestos descaradamente perversos e maldosos. Queremos apenas encontrar alguém com quem possamos conversar de igual para igual, desarmados.

Nesta época de laços humanos fragilizados e sociedades líquidas (como diria o sociólogo polonês Zygmunt Bauman), o que vemos mesmo é a neurose coletiva da burrice robotizada [o quê?]. Não se contempla mais o indivíduo, com todas as suas complexidades e particularidades, mas somos todos aviltados, mediante trocas simbólicas do que seja realmente vida. Patifes em cenas patéticas!

Resta-nos esperança: termos segurança do que somos, independentemente da idiotice e maledicência em nossa volta, dos gostos e padrões massificados, dos seres controlados pela vaga ideia da felicidade e prazeres instantâneos. Corpos sarados e mentes adoecidas. Ditam-nos o que é ser bonito, como se o homem já houvesse alcançado a proeza de desvendar o belo. Tolos em cenas tolhidas!

… apenas rio em mim.

DIA DO JORNALISTA

O debate sobre a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício do jornalismo no Brasil extrapolou todos os limites da razão, da ética e da honestidade intelectual. E se transforma num emaranhado confuso de aleivosias, sob o pesado silêncio dos jornalistas profissionais e dos estudantes de comunicação.

O reconhecimento do diploma, conquista que fundamentou o aprimoramento do jornalismo brasileiro, colocando limites na picaretagem que campeava nos tempos de Assis Chateaubriand e seus “carteiraços”, está sob sério risco de desaparecer, sob os ataques de candidatos preguiçosos a uma profissão digna, construída com sacrifícios de vidas inteiras dedicadas à busca da verdade e com o suporte dos proprietários dos meios de comunicação e seu exército de yes-men.

Os polemistas sempre a postos para um bate-boca sobre qualquer assunto vão odiar a afirmação, mas esse debate não tem qualquer nobreza. (trecho do artigo “Jornalistas (profissionais), uni-vos!“, de Luciano Martins Costa, publicado no Observatório da Imprensa)

Como disse minha querida Hanna Lewis, em resposta a tantas baboseiras faladas por aí contra a exigência do diploma de jornalimo para o exercício da profissão, repito que os atuais debates sobre esse assunto estão motivados muito mais pela tentativa de desqualificar a atividade jornalística no Brasil do que por qualquer outro interesse “digno de nota”. Sim, desqualificar!

Ora, sabemos que nenhum canudo assegura a qualidade, a capacidade, a ética e tantas outras exigências para o exercício de nenhuma profissão. Se o argumento é que basta ter talento para ser jornalista, então tornemos isso mais abrangente: basta ter talento para ser médico; basta ter talento para ser assistente social; basta ter talento para ser advogado; basta ter talento para ser psicólogo; basta ter talento para ser professor universitário de história et cetera. Sendo assim, vamos colocar em prática o que prevê o artigo 5º da Constituição Federal de 1988: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

O que vejo mesmo é gente desinformada e de raciocínio curto reduzindo a função do jornalismo. Gente que desconhece a história de luta de mais de 80 anos pelo exercício da profissão com qualidade, respeito e liberdade de expressão. Neste país, onde políticos são donos de veículos de comunicação, onde empresários se submetem às mais perversas formas de corrupção, onde as pessoas compartilham “honestidades relativas”… neste país, onde há milhões de analfabetos, insegurança pública rolando solta por aí, onde há gente sem o mínimo de compromisso ético… neste país, não me espanta que debates desse tipo sejam tão fraudulentos.

E outra… não sejamos tolos: jornalistas não são formadores de opinião! Não nos deem esse legado autoritário.
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Hoje, terça-feira, 7 de abril de 2009, comemora-se o Dia do Jornalista.

UM CONTO SOBRE SUICÍDIO

por Michel Oliveira*

Acordou sem gosto na boca. Mais uma vez teria de procurar algo que não sabia. Levantou despenteada. Cabelos loiros, pele clara. Olhos azuis perdidos na imensidão de seu vazio.

Quis cantar, mas não lembrava nenhuma canção. Seu toca-discos não funciona mais. Nunca foi adepta da modernidade, não aderiu aos CDs.

Suas pernas estavam peludas, mas que importa? Ninguém a acariciaria. Não lembrava seu nome, afinal não havia quem o chamasse.

Mas naquela manhã acordou diferente. Não havia gosto em sua boca. Lembrou-se então de que sentia sede. Desceu as escadas. Nos pés, as meias coloridas com que dormia todas as noites. Viu no aparador a fotografia de um antigo namorado, mas não conseguia lembrar-se da voz dele.

Lembrava-se de poucas coisas. Todas elas sem interesse para os outros.

Lembrou-se novamente de que tinha sede. Entrou lentamente pela cozinha e pegou um grande copo listrado que ganhou da avó. Bebeu lentamente com o ar solene que lhe era habitual.

Não sabia, mas havia matado a sede.

Por um instante cantarolou uma canção, mas não lembrava a letra. Teve fome. Havia dois dias que não comia. Abriu a geladeira, estava vazia. No armário encontrou torradas, estavam amolecidas, mas não importava. Comeu-as sem prazer.

Não sabia, mas havia matado a fome.

Ouviu um barulho, não sabia de onde vinha. Passou pela sala com as meias coloridas. Abriu todas as gavetas, o velho armário, mas nada encontrou. Tudo cheirava a mofo, mas não se sentia sufocada.

Abriu a pequena porta que fica embaixo da escada. Estava escuro, mas não teve medo. Destampou um velho caixote de madeira e encontrou o que estava fazendo o barulho. Uma velha caixa de música enferrujada que tocava sem ninguém dar corda. Não era o som agradável de antigamente, mas tocava.

Não sabia, mas havia matado a curiosidade.

Sentiu repentinamente falta de sexo. Ligou para um garoto de programa qualquer, que entrou sem lhe olhar nos olhos. Fez o que havia de ser feito, tomou banho e foi embora. Ela nada sentiu, apenas acalmou seu desejo animal.

Não sabia, mas havia matado o desejo.

Chovia lá fora. Uma chuva fria e dissimulada. Teve frio. Vestiu um velho casaco de lã, cheirava a naftalina, mas não espirrou.

Não sabia, mas havia matado o frio.

Queria dormir, mas o sono não vinha. Deitou-se. Rolou para todos os lados: de bruços, de lado, cruzou as pernas, os braços, os dedos, e nada. O sono não vinha. Lembrou-se então de velhos comprimidos que estavam na bolsa. Tomou-os sem fé que funcionariam. Nunca acreditou na ciência. Duas horas depois dormiu.

Não sabia, mas havia se matado…

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* Michel Oliveira, meu amigo, escreve no blog “Drogado Cultural“.