PORCOS SAGRADOS

Melancolia eram os sons de uma noite de inverno. (Virginia Woolf)

Alguns creem na influência de deuses sobre nós. Alguns não creem em nada além do que é palpável, visível, tangível. Alguns recebem como verdade única a doutrina espírita, legítima, imutável. Outros não enxergam um palmo abaixo do nariz. Hinduístas consideram as vacas sagradas. Outros vislumbram conhecimento raso, ridículo, mesquinho e inválido. Uns pensam que os avanços tecnológicos vão dominar o mundo. Alguns, como eu, acreditam na graça de Deus. No Evangelho segundo Jesus Cristo. Alguns defendem ser essa última crença algo pequeno demais, ilegítimo demais, ilusório demais. Não importa. Independentemente do que acreditamos, parece-me razoável seguirmos a vida sendo coerentes com o que cremos.

Sobre o que fizeram do Evangelho, transformaram-no em esterco. Bênçãos são vendidas diariamente. Negocia-se com Deus em troca de carros importados, de casas luxuosas, de terrenos suntuosos, de bons salários, de uma vida financeiramente de sucesso. Correntes dos empresários são idealizadas. Briga-se por um pouco de “dólares bem reais”. Tudo em nome da ridícula e enganosa prosperidade teológica. Projetaram um deus. E esse deus está morto! “Deus” é capitalista selvagem! Aproveita-se da dor alheia, da imaturidade alheia, da angústia e do vazio existencial de muitos. Jogam os porcos às pérolas.

Sugam a alma do homem. A individualidade do outro. A liberdade de escolha de quem quer que seja. Mulheres têm de ser castas. Casamentos têm de ser eternos. Não importa se essa união tenha se tornado insuportável. Dançar tornou-se algo pecaminoso. Beber e fumar são duas coisas diabólicas. Ouvir músicas que não sejam aquelas canções com “certa criatividade gospel” é repugnante. Cortar os cabelos é vaidade, como se tudo já não fosse vaidade nesta vida! Homens de cabelos longos é “armadilha de satanás”. Líderes religiosos são deuses cristãos. Missionários são salvadores da pátria. Tudo é tão patético!

Cria-se um modelo de vida impossível de ser experimentado honestamente e com liberdade de espírito. O excesso de ansiedade assola todo o ser. Busca-se sei-lá-o-quê. Perde-se um tempo danado inventando proibições. Recusa-se a ideia de Deus. Apenas como Ele é. Sem mais. Nem menos pudores. São orgias sagradas. Olhares sem brilho, fome e sede de viver. Poderes, gritos, orações repetidas, pobres criaturas com medo de irem pro inferno porque elas já sabem quem realmente são. A motivação não é mais ter vida em abundância, ter corações pacificados, ter espíritos longânimos, andar na contramão da loucura do dia-a-dia. Agora, a motivação é ser “perfeito” para que o inferno não nos perturbe. E os “santos” homens não nos chamem de “imorais”.

Não é assim que creio. Por isso, só posso pensar: eles dão esterco e chamam isso de evangelho…

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WOOLF, Virginia. O quarto de Jacob. Tradução Lya Luft. Osasco (SP): Novo Século Editora, 2008, p. 78.