AGNES DE DEUS

A boa poesia é a música da matemática. Números que cantam. Olhem além das palavras para compreenderem os seus sentidos. (Dr. Fredericks, personagem do filme O bom pastor)

Desde a infância, tenho o hábito de guardar frases. De identificá-las nos livros, nas músicas, nas ruas e no cinema. Há sempre alguma frase que traduz perfeitamente a maneira como percebemos a vida. Como sentimos as pessoas. Como identificamos o nosso lugar no mundo. Haverá alguém que já disse o que gostaríamos de dizer. Que já pensou o que poderíamos pensar. Ou até mesmo o que nem pensaríamos. Ou nem diríamos. E nada me parece novo. Ainda que dito pela primeira vez.

A bondade humana é um mito. E somente alguém não-humano seria capaz de produzir tanta beleza na vida. De plantar no homem e extrair dele alguma coisa boa. Sim, chamem-me de incrédula. Mas é assim que é. Somos todos tolos. E pensamos que somos mais que isso. Pergunto-me: como sobrevivem as pessoas demasiadamente insensíveis? Não sei. Nada há de mais atraente do que a linguagem da alma perspicaz. Mesmo que ela nos pareça piegas. E eu rio de nossa capacidade fantasiosa e infantil de considerarmos o outro anjo.

O homem não me surpreende.

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O bom pastor (2006, EUA, The Good Shepherd) – filme dirigido por Robert De Niro, com Matt Damon (Edward Bell Wilson), Angelina Jolie (Clover/Margaret Ann Russell), Alec Baldwin (Sam Murach), William Hurt (Philip Allen), Billy Crudup (Arch Cummings), Joe Pesci (Joseph Palmi), John Turturro (Ray Brocco) e Michael Gambon (Dr. Fredericks) no elenco.

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS

QUANDO TORNAR a vir a primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.
(Alberto Caeiro)

Após pequenos dois meses de silêncio virto-literário, retorno com ares de quem não viu o tempo passar. De quem, sequer, percebeu o horário de verão vir e ir. Um momento de transe. A propósito, há um grilo fazendo “cricri”. Ele me irrita, pois nunca decorei com precisão as onomatopéias. Pois bem: o transe é loucura. E talvez o grilo esteja louco!

Sim, a primavera é uma maneira de dizer. E nada de consultar dicionários para utilizar palavras sofisticadas! Ser sofisticado é breguice. E das braba! Sejamos clínicos. E amadores. Sejamos especialistas. E duvidemos. Quem sabe assim a vida se torna muito mais que tudo: há outros dias mais suaves.

Porque eu estive grilo.

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PESSOA, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa. Edição Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006, p. 93.