FORA DO AR

Caros visitantes e amigos,

estarei fora por algum tempo e, por conta disso, não terei condições de atualizar este site. Tão logo seja possível, pretendo retornar. Agradeço a todos vocês que me acompanharam e/ou visitaram em algum período dos meus quatro anos de pretensa vida de escritora virtual.

Um abraço carinhoso,
Aline

BLOCOS DE CERÂMICA

[…] podendo evitar a dor, eu a evito. Mas a dor inevitável, sendo vista como o outro lado da bênção do sentir, é apenas uma dor. Dor sem moral e sem filosofia dói muito menos; e até pára de doer.

Sim! É apenas uma dor; e que vai adoçando o coração; a tal ponto que ela se torna um sentir calmo e sereno; afinal, emoções são naturais; e, além disso, sofrer nem sempre dói; e chorar menos ainda; visto que o que dói mesmo é não amar. Esse, sim, é o grande sofrimento e a grande angústia humana! (Caio Fábio)

Recordo-me de muitas cenas de minha infância. Uma, em especial: quando criança, num período em que minha casa estava em reforma, eu costumava ficar deitada sobre os blocos de cerâmica empilhados no quintal, olhando as estrelas. Lembro-me de que essas cenas se repetiam sempre que faltava luz na cidade. Do meu lado, deitava o meu pai, com o seu rádio ligado em não sei qual estação… Às vezes, ouvíamos narração de futebol. Eu não gostava muito, mas, ajudava-o a torcer pelo Fluminense (fazemos coisas bem curiosas quando amamos, é verdade!). Cresci ouvindo meu pai contar histórias. Nos blocos de cerâmica empilhados no quintal, eu ouvia muitas delas.

Meu pai sempre foi (e é) o homem que mais amei (e amo) na vida. Com ele, estabeleci relação de amigos. De pai e filha. Compartilhava sobre os pretendentes a genros no colegial. Dele, ouvia frases do tipo: você tem juízo, minha filha, não preciso me preocupar. Meu pai – com todas as suas fragilidades – é admirável. Sem que ele precisasse falar coisa alguma, eu aprendi com a sua vida a prezar pela honestidade, pela lealdade, aprendi a querer saber das coisas… Não, meu pai não é um cara perfeito. Não mesmo! E é exatamente disto que gosto: da certeza de que o amor que sentimos pelo outro não nos ilude quanto às suas imperfeições.

Logo na epígrafe deste texto, está escrito: podendo evitar a dor, eu a evito. Mas a dor inevitável, sendo vista como o outro lado da bênção do sentir, é apenas uma dor. A propósito, qual relação entre minhas lembranças de infância e a dor inevitável? Naquela época, nunca parava pra pensar sobre as dores inevitáveis. Estar com o meu pai era simplesmente sublime. Porque ele sabia do significado de muitas palavras. E eu adorava palavras! A presença dele me encorajava. Eu não tinha medo do escuro. Portanto, não tinha medo de dores inevitáveis, daquelas que nos deixam na escuridão. Hoje, descubro que, de fato, a grande angústia humana é não amar.

Às vezes, adultos, tudo não passa de uma dor, que vai adoçando o nosso coração…

… até nos tornarmos calmos e serenos novamente, como se estivéssemos deitados sobre os blocos de cerâmica empilhados no quintal de casa, olhando as estrelas.

SE O CÉU NUMA TORRENTE CHORA

[…] Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs
poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto,
aprendi a amar no cárcere.
(MAIAKOVSKI, p. 106)

Aquela dor que inibe o estancar do sangue, da cólera dos amores literários, do movimento curvilíneo da vida, que nem sempre nos previne das feridas que nos levam ao chão. O levantar dos olhos não é tão simples como nos ensinam os livros imaturos, como se tivéssemos a força criadora de dizer que nada mais dói. Que tudo passou. Quem nos ensinou a vida?

Se tivéssemos lido todos os livros, os clássicos, os finais felizes, as tragédias gregas, toda a história primitiva; se tivéssemos observado todos os museus, a arquitetura, os pergaminhos dos deuses; se tivéssemos descoberto que a admirável pintura de hoje ou a exposição do dia seguinte, em geral, foi o tormento arrasador do artista; se tivéssemos. Ainda assim estaríamos aqui, escrevendo estas mesmas linhas, sentindo a mesma dor, porque a vida não nos parece querer antecipar respostas.

Impossível andar e seguir adiante sem nunca precisar olhar para trás. Impossível. E não nos enganem dizendo o contrário. Como se ainda fôssemos tolos, ingênuos, puros. Sejamos honestos com a falta de inocência que nos acomete a alma, quando deitamos perdidos dentro de nossa dor e agonia particulares. Tão em nós, que sequer podemos dividi-los. Deixe-nos aqui calados. Sentindo. Apreendendo. E não por acaso sempre haverá exposição de arte. Porque nunca faltará inquietação na alma. Ela precisará sangrar, sangrar muito, para que se crie a beleza semelhante à do Louvre.

A vida (sim, ela mesma) necessita – de algum modo sombrio – nos ensinar. Ela não se apressa, nem muito menos a dor se apressa para acabar. A dor pára. Porque é nesse instante que observamos além do cárcere. Até a mais alegre e comovente das pinturas só nos parece possível por causa de uma alma atormentada. Se não fosse assim, quem perderia seu tempo, se o céu numa torrente chora…

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MAIAKOVSKI, Vladimir. Trecho do poema “Adolescente”. In: Vida e poesia. São Paulo: Martin Claret, verão de 2007.

FALSIDADE IDEOLÓGICA

por Michel Oliveira

(…) É assim, com esse clima de frustração, que muitas vezes nos deparamos com pessoas que nos dão uma imagem completamente oposta ao conteúdo. Não estou falando de pequenas frustrações, tipo aquelas de amigos que não correspondem às nossas expectativas, e sim de algo bem mais profundo, de uma falsidade ideológica, de uma profunda distorção de caráter.

Imagine-se num belo dia de verão. O sol está lindo, não há nuvens no céu e faz um calor terrível. Você não tem para onde correr, pois, correndo, seu calor vai piorar. Então, de repente, não mais do que de repente, você tem uma idéia que parece salvar seu dia.

– Uma coca-cola bem gelada, por favor! Exclama.

Nesse momento de sede e agonia, só a coca-cola pode salvá-lo. Você levanta o anel da latinha, o vermelho da embalagem mexe com seu sangue e depois vem o ?tsiiii?. Nunca houve som tão agradável aos seus ouvidos. Vem, então, o seu primeiro gole, que parece até aquele seu primeiro beijo de tanta emoção.

O líquido gelado desce por sua garganta e é aí então que toda a poesia morre. Para o seu desprazer, não é coca-cola que tem na lata, e sim fanta! Você vê sua emoção padecer e reclama com o garçom, mas ele não pode fazer nada?

É assim, com esse clima de frustração, que muitas vezes nos deparamos com pessoas que nos dão uma imagem completamente oposta ao conteúdo. Não estou falando de pequenas frustrações, tipo aquelas de amigos que não correspondem às nossas expectativas, e sim de algo bem mais profundo, de uma falsidade ideológica, de uma profunda distorção de caráter.

Criamos uma imagem nas nossas cabeças sobre as pessoas e passamos a cobrar que elas ajam segundo o roteiro que traçamos. Aí a culpa é, sem dúvida, nossa. Mas há outras que criam uma imagem própria como algo verídico, no entanto, há sempre um mais atirado que adverte:

-?Essa coca é fanta!?

Às vezes, a personagem está tão bem formulada e articulada que a inverdade é atribuída a quem nos advertiu. Há almas mais sensíveis no mundo do que a gente é capaz de perceber, e são essas que nos salvam.

Por isso, devemos ter cuidado com discursos baratos, forçados, sugados de outros. Esteja sempre atento àquilo que lhe rodeia. Não é porque uma pessoa está com os cabelos molhados que significa que ela tomou banho. Para saber se eles foram lavados, é necessário sentir o cheiro do xampu e, ainda assim, há muito mais meios de fazê-los cheirar sem tê-los necessariamente lavado. Mas aí, paciência!

Repito: sempre desconfie antes de confiar! É mais seguro, prático e econômico. Assim, você evita alguns machucados desnecessários ao coração. Isso significa que devemos desacreditar de todos? Absolutamente. O que digo é que só desconfiando que você poderá enxergar determinada pessoa como credível, lembrando sempre que alguns deslizes acontecem, com todo mundo. Afinal, ainda somos ecologicamente incorretos.

Honoré de Balzac disse que meio-termo jamais: ou se tem total confiança ou nenhuma. Ele se referia aos criados, mas nada nos impede de aplicar esse método em indivíduos do nosso meio.

Devemos sempre nos questionar se as idéias que possuímos correspodem ao cotidiano das nossas vidas, se correspondem aos fatos. Pois só dessa maneira teremos a consciência tranqüila quando alguém gritar:

– Essa coca é fanta!

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Michel Oliveira é estudante de jornalismo da Universidade Federal de Sergipe (UFS), amigo meu e conterrâneo. Uma das pessoas com as quais tive o prazer de passar a madrugada conversando sob as estrelas de uma cidadezinha qualquer. Infelizmente, não costumo encontrar todos os dias pessoas inteligentes, sensíveis, com percepção apurada. Há mais cínicos na terra do que supõe a nossa ingênua credulidade.

Nota: Texto extraído deste blog, sob o título original Suas idéias não correspondem aos fatos.

VENHA VER O PÔR-DO-SOL


– Ver o pôr-do-sol? Ah, meu Deus… Fabuloso, fabuloso! Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr-do-sol num cemitério.
(p. 27)

Se nos convidam para a vida, então que não nos mostrem a morte. Até mesmo porque sabemos que há “tantas violetas velhas sem um colibri”. E isso nos parece trágico. Ou, no mínimo, dramático. E, se pararmos pra pensar, enlouqueceremos. Só de imaginar o quanto há pessoas cínicas…

Ai, que nojo!

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TELLES, Lígia Fagundes. Trecho do conto “Venha ver o pôr-do-sol”. In: ___ Antologia: Meus contos preferidos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

DOIS MIL E OITO


(…)
Just be yourself, don’t be so shy
There’s reasons why it’s hard…

(…)
A celebration is going on tonight
Poets and prophets would envy what we do…

(Hey you by Madonna)

Deixemos com os poetas e profetas que sempre virão depois de nós. Ou antes. Mas nunca enquanto nós. Mentiras e nenhuma verdade. Imagens congeladas em velocidade rítmica. Mais que isso seria prejuízo de tantas grandes e pequenas ilusões. Não tenhamos corpos santificados. Porque esses já estão mortos. Lisa e Catherine continuam de mãos dadas. Achamos que todos os anos são iguais, mesmo que tudo esteja diferente. Gritos que silenciam a intensidade dos amores. Esqueçamos as performances. As máscaras. Os manuais de boas maneiras. Dane-se o politicamente correto. Assim são os anos… todos iguais… com uma ou outra diferença…

E PARA QUE SERVE CADA ANO QUE VIRÁ…

… que não apenas para entedermos que devíamos ter amado mais; que devíamos ter chorado mais; que devíamos ter feito o que realmente queríamos. Que não apenas para aprendermos com as nossas imperfeições, com os mal-entendidos; não apenas para reconhecermos as misérias de nossas alegações, as loucuras de nossas paixões, as dúvidas de nossas certezas. Deixemos com o passado aquilo que nos fez doer…

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Nota 1: Embora eles estejam indicados neste site, caso os vídeos sejam excluídos do YouTube, lembre-se de que você não conseguirá visualizá-los.
Nota 2: Se puder, leia este texto.

CATHERINE AND PETER LEWIS

por Aline Menezes

CAPÍTULO I

Algumas pessoas são como as obras de Tchaycowski, muito barulho, pratos, metais e bumbos, mas é só na superfície. Você é como Chopin e Debussy, uma aparência melódica, mas no fundo uma tensão insuportável que nunca se disssipa no movimento, é quase um rasgar do espírito. (Peter Lewis diz para Catherine)

CAPÍTULO II

… e não falemos de angústia. Dessa dor que nos dilacera, que nos torna culpados, como se pudéssemos controlar o mundo e tudo que nele há. Somos humanos por excelência, porque temos o desejo que nos purifica a alma: queremos viver. Sabemos ser inconseqüentes e intransigentes. Sentimos saudades ? eis nossa revolta contra o tempo, contra o espaço e contra o mundo. Discutimos nossas misérias cotidianas e históricas, pessoais e impessoais, buscamos ser honestos. Cinicamente honestos. (Catherine diz para Peter Lewis)

CAPÍTULO III

Compreendemos nossa condição fragmentária, imperfeita, implacavelmente imperfeita. E não nos mobilizamos por conta dessa imperfeição. Foi mais forte que nós. Mais intenso. Tenso. Desejos incontroláveis de transgredir. Não a transgressão que nos faz eternamente machucados, culpados, enganados. Mas aquela que nos deixa em paz, porque fomos capazes de dizer um para o outro o quanto somos especiais. E, curiosamente, não somos mais uma capela, mas uma verdadeira catedral. (Peter Lewis escreve para Catherine)

CAPÍTULO VI

O que há em nós é sagrado e profano. É puro e impuro. Parece vida, mas parece morte. Os dias nos consomem o espírito; roubam-nos o silêncio: a mudez; deixam-nos eufóricos, ansiosos, armados e desarmados. E também conspiram contra nós. É nisto que acreditamos. Mudamos o rumo de nossa história. Sentimo-nos seguros e inseguros. Livres e aprisionados. Um paradoxo sem fim. Mas somos a nossa própria e imensa vontade de viver. (Catherine escreve para Peter Lewis)

THE END

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Nota: Esta imitação de conto é apenas minha forma de falar das lembranças que ficam em minha memória. Recordações daqueles anjos que me motivaram e me inspiraram para rascunhar certas linhas. E é assim que me despeço de 2007: com pequenos e intensos diálogos de quem também já soube o que é amar!