FANTASIAS – DISFARCES & PERCEPÇÕES PERDIDAS

Produção imaginária de um sujeito que expressa seu desejo imaginário inconsciente sob uma forma disfarçada.

Sob a perspectiva da psicanálise, é assim que o Larousse define a palavra fantasia. Essa produção imaginária que se manifesta em nós. E não me refiro somente a fantasias sexuais (esse é um outro departamento, até interessante, por sinal). Refiro-me à percepção que temos de nós mesmos e dos outros. Refiro-me à concepção equivocada que criamos no decorrer de nossa vida. Refiro-me à distorção que fazemos de nossa realidade.

Quando alimentamos em nós idéias que não correspondem aos fatos, tudo se transforma em fantasia. Em imaginação. Em produção imaginária. Até mesmo a dor, sob uma determinada perspectiva, pode ser fantasiosa. O nosso esforço deve ser no sentido de criarmos condições e instrumentos capazes de nos alertarem, de nos fazerem enxergar com lucidez, de nos fazerem pensar melhor. A loucura será sempre a ausência da lucidez. Ou parte dela.

Acredito que as fantasias têm função determinada. E deveriam ter vida curta. Prolongá-las seria o mesmo que passar pela vida sem sentir o sabor do que é real, do que nos faz sentir vivos, do que nos faz acreditar e ter esperança no amanhã. A realidade não é essa coisa subjetiva de que tanto se fala. A realidade é o equilíbrio. É o meu dia-a-dia. É a nossa certeza de que temos contas a pagar. De que dirigimos o nosso carro. De que estudamos. De que trabalhamos.

Não nos furtemos de expressar este desejo imaginário inconsciente sob uma forma disfarçada. Porém, lembremo-nos de que ? para passar pela vida sem a angústia avassaladora de se sentir vazio ? é necessária a lucidez. Porque, sem ela, a vida será o infinito desespero humano.

A desgraça de todos os homens.

___________
Para enriquecer nossa compreensão sobre o tema, sugiro a leitura da seguinte entrevista:
O mundo da fantasia…

SEXO, DROGAS & ROCK’N ROLL

“Todavia, não desejava concluir de todas estas cousas que o mundo tivesse sido criado pelo modo que propunha, pois é bem mais verossímil que, desde o começo, Deus o fez como devia ser. Mas é certo – e é opinião comumente aceita pelos teólogos – que a ação na qual ele agora o conserva é a mesma que aquela pela qual o criou. De modo que, se bem que não lhe tivesse dado, no princípio, outra forma que a do caos, embora estabelecesse as leis da natureza, ele prestou a esta – é de se crer – seu concurso, para que ela agisse como é do seu costume, sem prejudicar o milagre da criação; e, só por isso, todas as cousas que são puramente materiais teriam podido, com o tempo, tornar-se tais como as vemos no presente. E sua natureza é bem mais fácil de compreender quando as vemos, deste modo, nascer pouco a pouco, do que quando as consideramos completamente feitas.” (René Descartes, pp. 106, 107)

Nascer pouco a pouco. Criar a revolução dos bichos. Testar as hipóteses das três leis de Newton. Seja lá o que for aquilo que nos move… isso é o que, em parte, somos. Será que somos nossas motivações? Às vezes, nada parece ser tão valioso do que amar a si mesmo. Descobrir-se a melhor companhia de sua própria existência. Não, isso não é agoísmo. É preservação. Preservar-se da morte em vida. Do suicídio coletivo. Ninguém deverá antecipar a sua hora da estrela. E quem são os cavaleiros que morreram na fogueira?

Às vezes, a transitoriedade da vida emerge como a única possibilidade de libertação. Mas, sobre isso, ninguém precisa concordar conosco. Ninguém precisa, nem mesmo, entender as nossas linhas. O nosso raciocínio. Deixemos de lado “os espíritos fracos e vacilantes que se deixam levar a praticar como boas as coisas que, a seguir, julgam más” (p. 75). “E só isso me parecia bastante para me impedir de desejar no futuro o que eu não pudesse adquirir e, desse modo, viver contente” (p. 75).

_________
DESCARTES, René. Discurso do Método. Tradução de João Cruz Costa. Rio de Janeiro: Edições de ouro.

SER JOVEM, NUMA PERSPECTIVA CRISTÃ

Por Caio Fábio

Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos; sabe, porém, que de todas estas coisas Deus te pedirá contas. Afasta, pois, do teu coração o desgosto e remove da tua carne a dor, porque a juventude e a primavera da vida são vaidade. Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer! (Livro de Eclesiastes, 11:9,10 e 12:1)

Aqui há quase um paradoxo. O jovem deve se recrear, andar por caminhos que alegram o coração e agradam os olhos. Ele, porém, deve saber que os atos da juventude podem deixar marcas e seqüelas. Por isso, a recomendação é no sentido de que se experimente a vida com bom-senso, buscando sempre os “bons prazeres”. Isto porque no desejo de atender às demandas do coração nos dias da mocidade, e na intenção de andar por caminhos que satisfazem aos olhos, pode-se entrar no caminho da dor e do desgosto. Por isso, os “bons prazeres” precisarem ser vividos sem “os maus prazeres”. Sim, há bons prazeres e maus prazeres nesta existência.

A recomendação, portanto, é para que se remova do coração o desgosto, e da carne a dor. Do contrário, a estação que é primavera da existência pode ser a fomentadora das dores existenciais de toda a vida. Ora, na minha maneira de ver, a “igreja” decidiu que não há bons prazeres e nem maus prazeres, visto que, para ela, o prazer em si é mau. E é em razão disto que se instalam na alma dos crentes os ?vazios? nos quais entram os maus prazeres. O que estou dizendo? Sim, o que digo é que a tentativa de viver sem prazer cria o espaço para os maus prazeres, visto que a repressão do bom prazer gera as pulsões interiores que explodirão como maus prazeres. O que precisamos saber é que é assim que a alma funciona. Se você faz SUPRESSÃO e sublima um desejo ou sentimento, não sendo uma decisão do equilíbrio, isto mesmo voltará como tormento. E se alguém faz REPRESSÃO de sentimentos e desejos, eles voltarão como compulsões, e, dependendo do nível da repressão, podem aparecer como taras, fetiches e desejos incontroláveis.

(…) Assim, aproveite o vigor e a vitalidade da alma e suas constelações da poesia.

_________
Fonte: http://www.caiofabio.com, especificamente numa carta intitulada “Consertos para a juventude”.

ARCO-ÍRIS, SOL & ESTRELAS…

“E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele. Uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos. Porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição.” (Livro de Atos, capítulo 17, versículo 18)

Um certo filósofo Elbert Hubbard disse que “todo homem é um tolo por pelo menos cinco minutos todos os dias; a sabedoria consiste em não exceder esse limite”. Tempo, tempo, tempo, tempo… É preciso coragem para não ter vergonha de ser o que se é. E seguir adiante com a certeza de que haverá sempre alguém disposto a amar. Haverá sempre alguém por quem valerá a pena acreditar… Acreditar no amanhã. E não exceder esse limite.

“Na presença de certos dados psicanalíticos que possuímos hoje, é-nos permitido pôr em dúvida a proprosição de Kant, segundo a qual o tempo e o espaço seriam as formas necessárias de nosso pensamento. Sabemos, por exemplo, que os processos psíquicos inconscientes são ‘intemporais’.” (Freud, p. 69)

“Os enigmas do universo só lentamente se revelam à nossa investigação; existem muitas questões a que a ciência atualmente não pode dar resposta. Mas o trabalho científico constitui a única estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade externa a nós mesmos.” (Freud, p. 70)

… e até sabemos o porquê do arco-íris, do sol e das estrelas.

______________
Livro Clipping: Freud. Coleção Pensamento Vivo. São Paulo: Martin Claret, outono de 2005.

ÀS VEZES, O QUE NOS FALTA É SOLIDÃO

Ao som das novas melodias da alma, da escura luminosidade da mente, das mais misteriosas ações da vida. Ao som da chuva que não caiu, do Sol que não brilhou, das noites que se manifestaram por nós. Ao som das músicas instrumentais, das letras harmoniosas, das cantigas infantis. Ao som dos outros, de nós mesmos, da sombra, de ninguém.

Pensemos em Schopenhauer, quando escreveu que ?a solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais?; pensemos em (e talvez duvidemos de) Vinicius de Moraes, por achar que, ?mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão?. E ainda sugiro que pensemos em Flaubert, quando nos ensina que, ?por mais que a alma lide, não rompe a sua solidão, e caminha com ela, como formiga num deserto perdido?.

Talvez devêssemos chamar Clarice Lispector, para nos dizer da solidão: ?minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite?.

Como um pássaro da mitologia grega, assim renascemos de nossas próprias cinzas. Ele alarga as asas, põe-se a lançar vôo e acreditar que agora vemos tudo do alto. Somos fênix. E sabemos que, às vezes, o que nos falta é solidão.

___________________
As citações feitas no texto foram extraídas do endereço:
http://www.sitequente.com/frases/solidao.html