BREVE MANUSCRITO DE CATHERINE

Do meu lado esquerdo, há um pai segurando o filho no colo e um livro infantil nas mãos. O pai lê para o filho a historinha de Max, o carro falante, e das personagens Carolina e Beatriz. O filho, curioso, a cada frase do pai, faz-lhe uma pergunta. Eles ficam assim por algum tempo.

Eu, sentada no chão, escrevendo estas linhas, observo as pessoas em minha volta: algumas estão com os seus notebooks; outras, com as suas inquietações. Alguns lêem revistas, fazem anotações, andam de um lado para o outro. Ou, simplesmente, aguardam a hora do embarque.

O vôo está atrasado. Poucos minutos atrasados. Neste momento, tento não pensar em minhas frustrações, luto contra as lembranças, invento que estou melhor. Nada adianta. Quanto mais não quero pensar, mais penso.

Duas mulheres acabam de se conhecer no saguão do aeroporto. Elas nada sabem uma da outra. Mesmo assim, acreditam ser grandes amigas. Do outro lado, uma mulher folheia a Caras. Um senhor lê um livro de aproximadamente 150 páginas. Tentei ver o título da obra, mas não foi possível… Ah, nunca saberei o que ele estava lendo!

E eu? Eu estou do lado de cá, consciente. Consciente de meu fracasso. Às vezes, nossa vida é como um saguão de aeroporto: todos têm a expectativa de vôo, mas nem todos embarcam na hora certa…

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IMENSIDÃO

Vôo
só. Sozinha vou,
num vôo só.
Vôo
só. Sozinha vou,
num vôo só.
Céu que não é seu.
O seu é o céu.
Na imensidão de
sentir-se sol.

(Por Aline Menezes)

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NEM SEMPRE ESTAR CERTO É O MAIS IMPORTANTE

“E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver.” (p. 208)

Há coisas belas que perdemos, sem sentirmos, sequer, o seu espectro. Certas experiências, não gostaríamos de deixá-las de viver. Certas pessoas deveriam permanecer sempre conosco. Eternamente. Tudo é mesmo transitório. E não gosto dessa transitoriedade. Quer dizer, gosto. Não sei.

Para cada criatura, um mundo: grande; misterioso; particular. Até o que é óbvio, às vezes, precisa ser repetidamente dito. Nem mesmo estas minhas frases soltas, aparentemente desarticuladas, são desimportantes para mim. E nem sei o porquê dessa tolice.

Todos os dias, morre um pouco de nós. Ainda não tenho certeza dessa minha afirmação. Verdade seja escrita: estamos sempre morrendo. Nascendo. Por que o outro nos fascina tanto, se somos monstruosamente iguais? Não devemos nos abater por isso.

Estamos definhando. Não, não estamos definhando. Sou assim mesmo: contraditoriamente esperançosa. Há um tipo terrível de pobreza: quando deixamos de sentir. Há um tipo miserável de escândalo: quando acreditamos que não merecemos o outro. Só porque o outro é:

Terrivelmente belo.

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NOTA: Quem disse a frase “nem sempre estar certo é o mais importante” foi a personagem Neli, interpretada por Beth Goulart, em “Paraíso Tropical”, durante diálogo entre ela e a sua filha caçula. Não sei por que, mas achei que eu devia dar os créditos para a teledramaturgia brasileira.

LISPECTOR, Clarice. Trecho do conto “Amor”. In: ___ Os melhores contos de Clarice Lispector. (Seleção Walnice Nogueira Galvão). São Paulo: Global Editora, 1996.