SOLIDÃO NA MULTIDÃO

Por Jorge Leite*

Silenciosamente, sigo a estrada,
Estreito trecho outrora de gramado,
Que em plena urbe insiste em ser pisado,
Embora a imponência da calçada.

Então me ponho a meditar em prantos,
Eu que me encontro tão triste e sozinho,
E atravesso cantando este caminho
Vendo os bares repletos de outros cantos.

Mais adiante, atravessando a rua,
Vejo táxis parados, esperando…
Ansiosos clientes vão passando
Em direção ao bar à luz da Lua.

Entregue à minha solidão e dor,
Eu, novamente, sigo o itinerário.
Em meio a tanta gente, eu, solitário,
Por vezes temo estar ausente o amor.

Onde a simplicidade do sertão?
Onde a magia do campo de antanho?
Hoje, por toda a parte, há tanto estranho
Que sou na multidão só solidão.

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*Jorge Leite é professor de Língua Portuguesa e aluno do curso de Especialização em Literatura Brasileira da Universidade de Brasília (UnB).

A MAIS ANTIGA

A casa tinha dois quartos. Era pequena. Sem luxo algum. A propósito, a simplicidade da casa refletia na criança a satisfação de ser criança. Não precisava se preocupar com móveis caros. Não precisava se preocupar em não quebrar objetos caros. Tudo era muito simples.

Nove anos. Era essa a idade da criança sorridente. Os vizinhos ainda se lembravam dela caminhando descalça pelas calçadas da cidade. Cabelos lisos. Castanhos. Pele morena. E divertida, embora tímida em algumas situações. Seu nome? Ah, seu nome…

O seu Jânio e a dona Zuleide, o casal mais velho da vizinhança, diziam que ela era esperta, que gostava de sentar no sofá e conversar. Falar sobre coisas que ela mesma não entendia. Era a presença do casal de idosos que inspirava curiosidade naquela menina.

– Seu Jânio, o senhor gosta do jornal? Ela perguntava.
– Sim, é bom pra gente ficar sabendo das coisas. Respondia o senhor.

Uma das coisas que mais chamavam a atenção da criança na casa daquele casal eram as bonecas tão bem guardadas por dona Zuleide. Brinquedos que estavam lá há anos. Dona Zuleide ainda tinha sua primeira boneca, que ganhara quando ela ainda era menina. Curiosa, a criança sempre pedia pra vê-las.

– Dona Zuleide, a senhora pode me mostrar aquela ali? Ela apontava em direção à mais antiga.
– Claro, meu anjo.
– Segura um pouquinho! A criança adorava isso.

E eram assim todas as outras noites. Ela tomava banho e dizia:

– Mãe, vou ver seu Jânio e dona Zuleide.

O tempo passou.

A cidade mudou.

Os vizinhos eram outros.

Seu Jânio e dona Zuleide… ela sabia pouco sobre eles agora.

E, ainda hoje, a criança, já mulher, sente saudades daquelas noites, em que a menina simplesmente queria ver o que ela não tinha.

Parte de sua história está lá, naquela cidade, naquela cidade que mudou.

Saudades dos vizinhos que não estão mais lá!

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* Este conto foi publicado pela primeira vez em 26 de dezembro de 2004, no endereço http://waltercruz.com/log/a_mais_antiga.

PRECONCEITO EMOCIONAL ? Parte I

As emoções da criança não tardam a esbarrar em proibições. São imoladas ao princípio da autoridade e à moral. Instaura-se um processo implacável de recalcamento, de modo que, em vez de se expandir, o potencial emocional se atrofia. A criança descobre que existem emoções permitidas e outras que não o são: ?Menino não chora?, ?Menina boazinha não tem acessos de raiva?, ?É feio amarrar a cara?, ?É feio sentir ciúme?, ?A gente não grita nem mesmo quando está contente…? Cada família alimenta seus próprios preconceitos nessa matéria, desenvolvendo uma verdadeira microcultura emocional. Numa, aprecia-se a alegria ruidosa; noutra, não se tolera qualquer manifestação de cólera; noutra ainda, alguém se apressa a dar uma guloseima à criança entristecida, assim fabricando um futuro bulímico que, quando estiver deprimido, não terá outro reflexo senão abrir a geladeira. (Michel Lacroix, filósofo, no livro ?O culto da emoção?)

O trecho acima não precisa de elucidações, muito menos de contexto. Creio que ele se explica sozinho. Porém, insistente que sou, gostaria de fazer minhas considerações: (1) embora o autor seja francês (Brasil e França apresentam realidades distintas), suas observações podem ser compreendidas de modo universal; (2) no Brasil, sobretudo em cidades menores, onde é bem visível o culto ao tradicional, aos costumes dos ?antigos?, notamos o quanto essa repressão emocional é comum: as crianças crescem alimentando uma visão míope do sexo, por exemplo; (3) sempre me perguntei de onde veio a idéia de que ?menino não chora?, a idéia de que expressar emoção é, de certa forma, vergonhoso; (4) nas cidades grandes, o inverso também acontece: vive-se a ilusão de que tudo é permitido, de que tudo é natural ? o verdadeiro culto ?à mente aberta?; (5) é uma pena que sejamos tão facilmente enganados.

?Assim, em busca de sensações fortes, o indivíduo moderno emociona-se muito. Mas, será que sabe sentir? Cada vez mais agitado e cada vez menos sensível, por que terá ele abandonado as emoções serenas? Eis o cúmulo do paradoxo: no momento em que triunfa e se torna objeto de um verdadeiro culto, será que a emoção tomou irremediavelmente o caminho do delírio??, questiona Lacroix.

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LACROIX, Michel. O culto da emoção. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2006. p. 63.
Nota sobre o autor: Michel Lacroix é filósofo e leciona na Universidade de Évry Val-d?Essonne, na França. No âmbito de suas pesquisas sobre os costumes e as mentalidades contemporâneas, publicou De la Politesse, L?Idéologie du New Age e Le Développement Personnel.