TERNURA DE SERMOS APENAS HUMANOS

Se não podemos mudar o mundo, interminável trabalho de formiguinha, resta nos abrir para o que existe e sempre existirá de positivo: os verdadeiros amores, que não se baseiam em vantagens, mas em ternura e respeito; as verdadeiras amizades, que não se contam pelos dias convividos, mas pela certeza de que o outro está sempre ali; as verdadeiras famílias, em que apesar das diferenças imperam a confiança e a alegria. Sempre que alguém quer e realiza o mal do outro, alguma coisa no mundo se desestrutura; toda ação ou palavra perversa, toda injustiça é um crime contra a natureza mais ampla, que nos inclui, a nós, seres humanos vulneráveis e grandiosos, patéticos e dignos – tudo isso por sermos apenas humanos. (Lya Luft, trecho extraído do artigo “O belo e o bom”, em sua coluna Ponto de Vista, da revista Veja, de 31 de janeiro de 2007)

Depois de ler “Pensar é Transgredir”, da escritora gaúcha Lya Luft, passei a admirar o seu trabalho, a sua forma de fazer livros. De escrever. Gosto de pessoas que me inspirem sensibilidade, pessoas que falam com o cérebro e com a alma. Sem, portanto, perder a simplicidade. Pessoas que se importam com o outro. Que reconhecem a complexidade do homem. Pessoas que pensam. Que transgridem. Que não se conformam. Que admiram o belo, mesmo que o belo seja de controversa definição…

PELAS OPERÁRIAS, POR ALANA, POR TODAS NÓS

Sem sexismos.

Estavam lá: as operárias de uma fábrica de tecido. Em homenagem a elas, hoje celebramos o Dia Internacional da Mulher. O trágico incêndio que matou, em Nova York, mais de 130 tecelãs é um símbolo da luta por melhores condições de trabalho. Contra as injustiças sociais. Contra a violência. A favor de mim e de você.

Não estamos mais em 1857. Dois mil e sete é o seu nome. Um ano lamentavelmente inesquecível para os pais de Alana Ezequiel, a menina de 12 anos que foi baleada e morta durante troca de tiros entre policiais e bandidos, no último dia 5 de março, no Rio de Janeiro. O desespero da família de Alana ficou estampado nos jornais, assim como a luta das operárias estará estampada no 8 de março de todos os anos.

Não quero despertar poesia. Faço apenas uma melancólica homenagem a todas as mulheres e meninas que se foram…

Sem que, ao menos, houvesse um amanhã!

Um amanhã sem violência.

Sem choros.

… lágrimas.

E SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ?

Em geral, a concepção que temos sobre ?ser de confiança? está atrelada às questões de ?intimidade?, ?conhecimento de muitos anos?, ?convivência?, e por aí vai. É raro alguém se preocupar em ser ?de confiança? para aquela pessoa com quem, possivelmente, nunca mais irá conversar. Por razões não muito desconhecidas, não é tão simples encontrar pessoas integralmente confiáveis. Seja no local de trabalho, numa comunidade religiosa, no ambiente acadêmico, no meio familiar ou em qualquer outro lugar freqüentado por ?gente? (no ambiente virtual, então, sem comentários), percebemos o quanto o ser humano tem dificuldade em ser sincero, honesto, íntegro, leal, sensível.

Há pessoas parcialmente confiáveis: demonstram ser leais apenas para um grupo muito seleto de amigos íntimos; apenas para um pequeno grupo da escola; apenas para um colega de trabalho. Minha admiração, portanto, vai para aqueles que cultivam a honestidade e a sinceridade de forma generalizada. Que não usam máscaras. Ou que, pelo menos, esforçam-se para não usá-las com ninguém. Pessoas capazes de falar conosco olho no olho, mesmo quando o que tem a dizer não é nem um pouco agradável. Pessoas capazes de ouvir uma ?fofoca? (creio que todos sabemos distinguir um fato de uma fofoca) e não sair tirando conclusões precipitadas, baseando-se no próprio umbigo ou no umbigo do fofoqueiro. Pessoas capazes de discordar de você na sua frente, de não esperar você ir embora para dizerem: ?Não concordo com o que ele/ela disse?.

Se tivermos sorte e ficarmos atentos, poderemos encontrar esse tipo de pessoa por quem nutro admiração, respeito e confiança. Se os céus forem generosos, poderemos aprender como é possível viver sem máscaras. E, se os astros não conspirarem contra nós, descobriremos quem não se importa em não ser assim…

“Que sorte têm os atores! Cabe a eles escolher se querem participar de uma tragédia ou de uma comédia, se querem sofrer ou regozijar-se, rir ou derramar lágrimas; isto não acontece na vida real. Quase todos os homens e mulheres são forçados a desempenhar papéis pelos quais não têm a menor propensão. O mundo é um palco, mas os papéis foram mal distribuídos.” (Oscar Wilde)

Desde criança, sempre fui apaixonada por tudo aquilo que é essencialmente humano. Na escola, costumava observar o comportamento espontâneo (ou não) de meus colegas, de meus professores. Nem a diretora escapava de minhas inocentes e despretensiosas observações. Durante esses meus momentos puramente experimentais, surpreendia-me com o sorriso falso dado por alguém a uma outra pessoa por quem não se tinha muito estima. Era apenas uma questão de ?politicamente correto?. Para cumprir tabela. Creio.

Passados alguns anos, episódios assim não me surpreendem mais, pois nessa minha admiração por coisas essencialmente humanas, está a certeza de que somos complexos. E a certeza de que o seu caráter não é construído pelo número de pessoas que confiam em você, até mesmo porque todas elas podem estar enganadas. O seu caráter pode ser medido pela maneira como você percebe o outro.