PRECONCEITO: de onde veio? – PARTE I

Quando consultei no Aurélio qual o significado da palavra ‘preconceito’, encontrei “opinião formada antecipadamente, sem maior ponderação dos fatos ou conhecimento dos fatos; idéia preconcebida”.

Dessa definição, fixei no “sem maior ponderação dos fatos”. ‘Fato’ é algo que realmente existe. ‘Ponderar’ é apreciar maduramente… E apreciar com maturidade aquilo que realmente existe faz bem à saúde mental. Ajuda-nos a aprender a desaprender…

Aprendemos, desde cedo, uma série de idéias equivocadas:

NA INFÂNCIA

1. A menina que é menina brinca de boneca e de casinha. O menino que é menino não pode brincar de boneca, pois é coisa feia;
2. Menina que brinca de empinar pipa (papagaio; arraia) será sempre algo suspeito.

(quando eu era criança, ouvi alguém dizer que “Aids é doença de gay”. E essa afirmação é conseqüência do desconhecimento dos fatos, da ausência de ponderação, da burrice… Vejam que as palavras carregam moralismos e preconceitos)

NA ADOLESCÊNCIA

1. Elas não devem namorar muito (e o que é namorar muito?), pois os garotos vão chamá-la de ‘oferecida’ (usemos termos brandos, certo?). Eles devem namorar bastante, pra aproveitar a juventude, pra provar que é macho.

NA JUVENTUDE

1. Mãe solteira; mulher solteira acima dos 30; mulheres divorciadas… em alguns casos, são olhadas de soslaio…
2. Homens solteiros… estão apenas à procura de uma mulher perfeita.

Sei que há todo um estudo sociocultural em torno disso. Não quero fazer considerações simplistas sobre coisas complexas. Apenas citei coisas muito comuns.

SOMOS TODOS PRECONCEITUOSOS

Do ponto de vista conceitual, creio que todos somos preconceituosos. E será sempre assim. Aprendemos a ter preconceito. Aprendemos a não levar em conta que… Aprendemos a não ponderar… Confundimos cultura com conhecimento. Dizemos, equivocadamente, que Fulano não tem cultura (na intenção de dizer que Fulano não tem conhecimento sobre determinadas coisas)…

O preconceito pode ser compreendido como a não-aceitação da diferença ou do diferente. Do diferente de nós, de nossas idéias…

O preconceito é a resistência. É a intolerância. E nos afasta da beleza dos relacionamentos. Da beleza do viver livremente…

A mudança é necessária. Respeitar é preciso.

Você é capaz de mudar?

baixos, altos, magros, gordos, mais ou menos, nem um nem outro, nortista, sulista, nordestino, ‘sudestista’, ‘centro-oestista’, homem, mulher, indefinido, homessexual, hetero, bi, tri, trans, branco, negro, mulato, pardo, ricos, torcedores do Flamengo, pobres, milionários, devedores, credores, espíritas, evangélicos, muçulmanos, católicos, wicca, umbandistas, crianças, jovens e adultos, estagiário, brasileiro, americano, francês, alemão, de Trindad Tobago, africano, portadores de necessidades especiais, torcedores do Vasco, sergipanos, paulistas, cariocas, imigrantes, moradores de rua, prostitutas, madames, senhoras e senhores, senhoritas, estudados e estudantes, sem-estudos, todos…

O RETRATO

O cenário é simples: um sol forte, no céu de cores quentes, queimando o rosto envelhecido do sujeito. O tal homem com um chapéu modesto para proteger-lhe a cabeça. Seus pés tocando o chão pedregoso do qual quase não brotou verde. Vê-se uma plantinha; mas não parece que a natureza foi generosa para com ela, pois é uma planta sozinha, quase sem cor. Luz, tem muita. Porém, falta água. E a plantinha parece olhar para o céu, esperando uma nuvem carregada surgir.

Mas, voltando à figura do homem, que está numa pedra; seus olhos apertados, como se olhasse para o infinito. A expressão do rosto faz dele mais velho – já não bastasse o sol que lhe deu uns anos mais – cria rugas ao redor da boca. Esta não provou iguarias, senão os grãos que tirara da terra. Bebida? Só quando a esposa morreu. Provou um gole de cachaça, que desceu queimando ao estômago. Chamaram-lhe pinguço. Não se importou com a ofensa. Pior que ela foi o gosto amargo que provou, um gosto parecido com a sua vida. As mãos, grossas e com aspecto de que já pegou as mais pesadas enxadas para cavar as terras mais difíceis.

O homem, o tempo, a vida, tão parados que se confundiam com um retrato. Mas algo se moveu: foi uma lágrima que desceu molhando a plantinha. E esta, toda contente, pensou que, enfim, iria chover.

Senhorita Spellman

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Texto de autoria de minha irmã Cecília, escrito para o 3º Concurso Literário Prosa e Verso, realizado em 2005 no Rio de Janeiro.