Darcy Ribeiro resiste e persiste

Darcy Ribeiro resiste e persiste*
por Débora Diniz
Antropóloga e professora na UnB

Fui estudante e, hoje, sou professora da Universidade de Brasília. Descrevo-me como experimento de Darcy Ribeiro para o conhecimento sem fronteiras — cheguei por um curso, passei por outros, me formei em antropologia, hoje sou professora do direito, e penso a saúde pública. A universidade é isso: não há perguntas predeterminadas, não há respostas já conhecidas e jamais haverá medo para mover a dúvida e o conhecimento. Assim, meu pedido aos que festejam a vitória das eleições com mensagens de ameaça ou terror: esqueçam as universidades. Deixem a Universidade de Brasília em paz.

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Mídia independente e autônoma

E o mundo, reduzido à sua matéria*
por Aline Menezes

“Somente quando as coisas podem ser vistas por muitas pessoas, numa variedade de aspectos, sem mudar de identidade, de sorte que os que estão à sua volta sabem que veem o mesmo na mais completa diversidade, pode a realidade do mundo manifestar-se de maneira real e fidedigna.” Essa afirmação está no livro “A condição humana” (Forense Universitária, 2007, p. 67), da filósofa política alemã Hannah Arendt (1906-1975). No capítulo em que ela escreve especificamente sobre o significado da vida pública ou da esfera pública e acerca de sua compreensão sobre o que seja comum a todos, a escritora de origem judaica afirma que a importância de sermos vistos e ouvidos por outros está no fato de que todos nós vemos e ouvimos de ângulos diferentes.

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Eleições 2018

“Quando à noite desfolho e trinco as rosas”
por Aline Menezes

Uma parte de mim está perplexa; a outra, aliviada. Repouso porque não estou só, muito menos renegada. Sinto-me acolhida por aquela gente que nos humaniza por meio da arte, da literatura, da música, da poesia, da dança, da lucidez, do respeito à diversidade de crenças, de raça, de orientação sexual, de gênero, de classe social. Sinto-me acolhida por todos(as) que me antecederam em luta e por todos(as) com quem seguirei daqui em diante. Aprendi a resistir. E a não negociar a minha dignidade, a minha integridade e o que sou. Uma parte de mim está perplexa; a outra, aliviada. Repouso quando sei que as minhas irmãs e os meus pais não afagam o escárnio dessa gente vulgar, que ora em voz alta, pra abafar o grito de sua perversão. 

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Carta à jovem Malala

Carta à jovem Malala: moro num país tropical
por Aline Menezes

Comecei a frequentar a escola aos três anos de idade; aos cinco, aprendi a ler. De lá pra cá, passaram-se três décadas e continuo lendo, estudando, gostando de aprender e de conhecer mais – por exemplo – sobre a vida, as pessoas, o mundo e o universo literário. No entanto, moro num país onde nada disso parece importar muito. E, quando isso denota relevância, é apenas superficialmente, como se títulos e diplomas dessem às pessoas o direito de elas serem arrogantes e estúpidas com aquelas que não tiveram as mesmas chances e oportunidades que muitos de nós tivemos.

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Human

Entre o choro e o riso do que é humano
por Aline Menezes*

“Quando não tem mais o que comer, vamos catar arroz em buraco de rato. Quando a gente acha um pouco, a gente coloca num cesto. Só vai para casa quando enche um saco. [..] Deus tem um coração bom. Ele nos protege e nos dá tudo. Quando ele me vê procurando em todo canto, eu sempre acho uns grãos.” Essa frase é a transcrição do relato de uma mulher chamada Lalmati, na Índia, que é uma das personagens reais da primeira parte do documentário “Human” (França, 2015), dividido em três volumes, realizado pelo jornalista e fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, e lançado no Brasil em 2016, cuja divulgação inicial foi feita em trechos no YouTube, correndo o mundo.

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special

Eles eram mitos e cavalos
por Aline Menezes*

Aprendi com minhas irmãs mais novas que os bichos são tão especiais quanto os seres humanos, pois a vida – no sentido mais abrangente e filosófico de todos – não está limitada a valores antropocêntricos. Aprendi com minha irmã Cecília que as plantas, as árvores e as aves podem ser tão poéticas quanto os versos de autoras brilhantes. Aprendi, inclusive, que a beleza da nossa existência no mundo não está apenas naquilo que podemos tocar com as mãos, com o corpo; antes, é o que sentimos com a inteligência, com a alma e com a sensibilidade que mais importa.

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coldness

Uns dias frios
por Aline Menezes*

No semáforo, na fila do banco, num restaurante, num café ou aguardando ser atendida em algum lugar, observo as pessoas: o casal no sábado à noite distrai-se, individualmente, nas telas de seus celulares; o pai que sai para passear com o filho não presta atenção na criança porque está entretido sozinho; a família na pizzaria não está em família, pois cada um parece estar isolado entre selfies, mensagens instantâneas, fotografias dos pedaços da pizza e muitas poses para exibir a “união sagrada”; os quatro amigos que estão na livraria, quase mudos, concentram-se em seus iPhones, sem que nenhum deles fale uns com os outros; a moça da casa lotérica me atende conferindo as mensagens que não param de chegar do WhatsApp…

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education

A culpa é de quem?
por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

É assustador saber que, no Brasil, não é ponto pacífico erradicar a pobreza, empoderando quem se encontra à margem do processo de desenvolvimento do país. É extremamente preocupante acompanhar pensamentos que defendem privilégios e ignoram direitos. Nesse sentido, Giuliana Ortega, diretora executiva do Instituto C&A, no artigo “Oportunidades na cultura de doação” (Estado de Minas, de 14/7/2006), defende uma tortuosa linha de raciocínio, a saber: “Na década passada, por exemplo, a vitalidade econômica do país e o aumento do poder aquisitivo das classes mais pobres acabaram por induzir organismos multilaterais e de cooperação, bem como as fundações internacionais, a direcionarem para outros países recursos que antes vinham para o Brasil”.

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fascism

Fora criada sozinha, só com a mãe. Tinha mais um irmão que pouco brincava com ela, pois acompanhava o pai no trabalho da roça, nas terras dos brancos. Ela e a mãe ficavam dias e dias sem ver os dois. (Conceição Evaristo em Ponciá Vicêncio)

Por quem os gritos se prostram
por Aline Menezes

A mineira e economista Dilma Rousseff, especialmente desde que assumiu o primeiro mandato na Presidência da República, sempre teve suas falas editadas e exibidas de modo debochado pelos seguidores dos comandantes fascistas. Na tentativa de silenciá-la, tentaram desqualificar os seus pronunciamentos para nos convencerem de que a chefe do País não estaria preparada para lidar com questões políticas e econômicas. No entanto, sabemos que as reais motivações por trás dessa reprovação desonesta, mediada pela atenção jocosa a seus discursos, são apenas mais um indicativo do quanto nós, mulheres, ainda temos que lutar, por exemplo, contra o sexismo e a misoginia.

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dilma rousseff

O feminismo tem tido um importante papel na demonstração de que não há e nunca houve “homens” genéricos – existem apenas homens e mulheres classificados em gêneros. [..] temos uma infinidade de mulheres que vivem em intrincados complexos históricos de classe, raça e cultura. (Sandra Harding, filósofa e feminista americana)

O valor da fala
por Aline Menezes

Debates sobre o pedido de impeachment à parte, escrevo este texto motivada por inquietações e desconfortos particulares e coletivos que me seguem há muito tempo. Isso porque vivo em um dos países mais violentos e injustos do mundo, principalmente em termos de liberdade e direitos de meninas e mulheres no Brasil.

Desde o primeiro ano do primeiro mandato em que a mineira e economista Dilma Rousseff assumiu a Presidência da República, começaram os primeiros e “pequenos” atos de violência contra a figura feminina (“e pouco feminina”) que ela representava. Na verdade, bem antes disso, já nas campanhas eleitorais…

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