Carta à jovem Malala

Carta à jovem Malala: moro num país tropical
por Aline Menezes

Comecei a frequentar a escola aos três anos de idade; aos cinco, aprendi a ler. De lá pra cá, passaram-se três décadas e continuo lendo, estudando, gostando de aprender e de conhecer mais – por exemplo – sobre a vida, as pessoas, o mundo e o universo literário. No entanto, moro num país onde nada disso parece importar muito. E, quando isso denota relevância, é apenas superficialmente, como se títulos e diplomas dessem às pessoas o direito de elas serem arrogantes e estúpidas com aquelas que não tiveram as mesmas chances e oportunidades que muitos de nós tivemos.

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Human

Entre o choro e o riso do que é humano
por Aline Menezes*

“Quando não tem mais o que comer, vamos catar arroz em buraco de rato. Quando a gente acha um pouco, a gente coloca num cesto. Só vai para casa quando enche um saco. [..] Deus tem um coração bom. Ele nos protege e nos dá tudo. Quando ele me vê procurando em todo canto, eu sempre acho uns grãos.” Essa frase é a transcrição do relato de uma mulher chamada Lalmati, na Índia, que é uma das personagens reais da primeira parte do documentário “Human” (França, 2015), dividido em três volumes, realizado pelo jornalista e fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, e lançado no Brasil em 2016, cuja divulgação inicial foi feita em trechos no YouTube, correndo o mundo.

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special

Eles eram mitos e cavalos
por Aline Menezes*

Aprendi com minhas irmãs mais novas que os bichos são tão especiais quanto os seres humanos, pois a vida – no sentido mais abrangente e filosófico de todos – não está limitada a valores antropocêntricos. Aprendi com minha irmã Cecília que as plantas, as árvores e as aves podem ser tão poéticas quanto os versos de autoras brilhantes. Aprendi, inclusive, que a beleza da nossa existência no mundo não está apenas naquilo que podemos tocar com as mãos, com o corpo; antes, é o que sentimos com a inteligência, com a alma e com a sensibilidade que mais importa.

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coldness

Uns dias frios
por Aline Menezes*

No semáforo, na fila do banco, num restaurante, num café ou aguardando ser atendida em algum lugar, observo as pessoas: o casal no sábado à noite distrai-se, individualmente, nas telas de seus celulares; o pai que sai para passear com o filho não presta atenção na criança porque está entretido sozinho; a família na pizzaria não está em família, pois cada um parece estar isolado entre selfies, mensagens instantâneas, fotografias dos pedaços da pizza e muitas poses para exibir a “união sagrada”; os quatro amigos que estão na livraria, quase mudos, concentram-se em seus iPhones, sem que nenhum deles fale uns com os outros; a moça da casa lotérica me atende conferindo as mensagens que não param de chegar do WhatsApp…

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education

A culpa é de quem?
por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

É assustador saber que, no Brasil, não é ponto pacífico erradicar a pobreza, empoderando quem se encontra à margem do processo de desenvolvimento do país. É extremamente preocupante acompanhar pensamentos que defendem privilégios e ignoram direitos. Nesse sentido, Giuliana Ortega, diretora executiva do Instituto C&A, no artigo “Oportunidades na cultura de doação” (Estado de Minas, de 14/7/2006), defende uma tortuosa linha de raciocínio, a saber: “Na década passada, por exemplo, a vitalidade econômica do país e o aumento do poder aquisitivo das classes mais pobres acabaram por induzir organismos multilaterais e de cooperação, bem como as fundações internacionais, a direcionarem para outros países recursos que antes vinham para o Brasil”.

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fascism

Fora criada sozinha, só com a mãe. Tinha mais um irmão que pouco brincava com ela, pois acompanhava o pai no trabalho da roça, nas terras dos brancos. Ela e a mãe ficavam dias e dias sem ver os dois. (Conceição Evaristo em Ponciá Vicêncio)

Por quem os gritos se prostram
por Aline Menezes

A mineira e economista Dilma Rousseff, especialmente desde que assumiu o primeiro mandato na Presidência da República, sempre teve suas falas editadas e exibidas de modo debochado pelos seguidores dos comandantes fascistas. Na tentativa de silenciá-la, tentaram desqualificar os seus pronunciamentos para nos convencerem de que a chefe do País não estaria preparada para lidar com questões políticas e econômicas. No entanto, sabemos que as reais motivações por trás dessa reprovação desonesta, mediada pela atenção jocosa a seus discursos, são apenas mais um indicativo do quanto nós, mulheres, ainda temos que lutar, por exemplo, contra o sexismo e a misoginia.

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dilma rousseff

O feminismo tem tido um importante papel na demonstração de que não há e nunca houve “homens” genéricos – existem apenas homens e mulheres classificados em gêneros. [..] temos uma infinidade de mulheres que vivem em intrincados complexos históricos de classe, raça e cultura. (Sandra Harding, filósofa e feminista americana)

O valor da fala
por Aline Menezes

Debates sobre o pedido de impeachment à parte, escrevo este texto motivada por inquietações e desconfortos particulares e coletivos que me seguem há muito tempo. Isso porque vivo em um dos países mais violentos e injustos do mundo, principalmente em termos de liberdade e direitos de meninas e mulheres no Brasil.

Desde o primeiro ano do primeiro mandato em que a mineira e economista Dilma Rousseff assumiu a Presidência da República, começaram os primeiros e “pequenos” atos de violência contra a figura feminina (“e pouco feminina”) que ela representava. Na verdade, bem antes disso, já nas campanhas eleitorais…

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Louise

[…] os povos do mundo deveriam exigir que se realizem investigações e se julgue aqueles que planificam fazer a guerra no corpo das mulheres. (Rita Segato, antropóloga argentina e professora da UnB)

Ela não sabia, nem nós
por Aline Menezes

Frequento a Universidade de Brasília (UnB) desde 2003. Lá, fiz cursos de inglês, espanhol, especialização, mestrado e agora doutorado. Em pouco mais de uma década, tive a sorte de conhecer professores e colegas inteligentes, adoráveis e íntegros, mas também tive a infelicidade de deparar com professores e colegas asquerosos, repugnantes, não apenas pela arrogância e (acreditem!) ignorância deles, mas porque alguns manifestam comportamentos bastante agressivos, desvirtuados e, na minha opinião, psicopáticos.

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poetic

Querer-se livre é também querer livres os outros. (Simone de Beauvoir)

Poéticas contemporâneas
por Aline Menezes

O poeta baiano Damário da Cruz (1953-2010) escreveu certa vez que “a vida dura menos que um poema”. Em “Gran finale”, ele se despede do mundo com a certeza de que aquele seria o seu último verso e transforma a ameaça da sua própria morte em poesia, expondo por meio da linguagem o modo com o qual ele saiu de cena.

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stupidity

A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele… (Hannah Arendt)

Vamos celebrar a nossa estupidez
por Aline Menezes

Na ausência de bons argumentos, de raciocínios que realmente sejam fruto de reflexões aprofundadas sobre os fatos e que não sejam reproduções falsificadas do senso comum, parece natural que uma das primeiras manifestações das pessoas – quando estão diante de debates “polêmicos” – seja a tentativa de desqualificar ou desvalorizar lutas legítimas como, por exemplo, a dos movimentos negros, feministas e LGBT.

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