Nenhuma variação do convívio humano é plenamente estruturada, nenhuma diferenciação interna é totalmente abrangente, inclusiva e livre de ambivalência, nenhuma hierarquia é total e congelada. A lógica das categorias imperfeitas preenche a diversificação endêmica e a desordem das interações humanas. Cada tentativa de completar a estruturação deixa grande número de "fios soltos" e significados contenciosos. (Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, p. 93)
Seres melífluos têm caráter duvidoso, mas não me assustam. Somos empurrados para a indelicadeza e a alienação. A atmosfera das sociedades, sobretudo modernas, conspira contra a reflexão. Contra a lucidez. E, quando pensamos, tornamo-nos incômodos para o bando de idiotas que nos cercam.
Até mesmo os seres consanguíneos se repelem. Movidos pela inveja, pelas antipatias gratuitas, pelos complexos formados ao longo da árvore genealógica. E pelas comparações ridículas, infantis e estúpidas. Seres consanguíneos, quando contaminados pela burrice do século, tornam-se brutamontes.
Leia o texto completo »[...] Pense por um momento no mundo em que vive um rato. É um mundo sem dúvida hostil. Se um rato passasse pela sua porta da frente neste minuto, o senhor o receberia com hostilidade? (do coronel alemão Hans Landa para o francês Perrier LaPadite, p. 11)
Minha fé não é poética, tampouco acaricio seres repugnantes. Percebo que há ratos e ratos, há espécies invasoras. E outras nem tanto. Escondo-me no assoalho de casa: para fugir não dos roedores, mas de mamíferos de caudas mais curtas e de focinhos arrebitados.
Sim, insisto: minha fé não é poética. Não quero ser recruta, apenas tomar vinho. Ter a sensação da embriaguez que me toca os lábios, mas não me anestesia a consciência. Só os tolos têm raiva da lucidez. Só as criaturas vis nos parecem nocivas; e quanto às outras?
É. Acho que sou garota de sorte, pois a insanidade que me assombra é a mesma leveza que me liberta.
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TARANTINO, Quentin. Batardos inglórios: o roteiro original do filme. Tradução Anna Lim. Barueri (SP): Manole, p. 11, 2009.
A utopia da internet é que já não necessitamos ser representados, a democracia é de todos, somos todos iguais. Mentira. Nunca fomos nem somos nem seremos iguais. E, portanto, a democracia de todos é mentira. Seguimos necessitando de mediações de representação das diferentes dimensões da vida. Precisamos de partidos políticos ou de uma associação de pais em um colégio, por exemplo. (Martín-Barbero, filósofo espanhol)
Sempre que andamos (ou tentamos andar) na contramão da estupidez ocidental, preservando-nos da alienação, das psicoses provocadas por qualquer tipo de pensamento ou comportamento que não gera vida em nós, nem muito menos ajusta nossa percepção, vemos os desenhos mais sutis de uma alma em caricatura. Sim, já sabemos: não somos impermeáveis. Às vezes, todos estão presos por algemas e acorrentados. O pior é que nem sempre se dão conta disso. Falta-lhes (ou falta-nos) consciência.
É verdade: a lucidez nos arrebenta; o equilíbrio também nos cansa. Há momentos em que só queremos um pouco mais de loucura. Mas tudo isso é bestagem. Tolice de nossas fantasias. Solidão de tanta gente junta. Vazios de terras cheias de ilusões. Sejamos assim mesmo, equilibradamente desalinhados. Águas cristalinas tão limpas quanto nossas impurezas de ser. A cena do crime já foi alterada. E os suspeitos... cada um de nós.
Às vezes, pergunto-me se encontraremos mais dragões ou moinhos de vento. Se a cegueira era apenas um ensaio. Temos o que ficou ou não há tanta sorte assim? Mas tudo bem: é "um prazer cada vez mais raro... vaidades que a terra um dia há de comer".