Especial »

[ 24 de Junho de 2009 | 3 feedbacks » | 1989 visualizações]

por Zuenir Ventura

Embora este jornal em editorial e Luiz Garcia neste espaço já tenham advertido que o fim da exigência de diploma para o jornalismo não deve ser entendido como sinal para o fechamento das escolas de comunicação, nem como desprezo pela sua contribuição ao ensino da profissão, volto ao assunto porque o perigoso equívoco continua aparecendo na polêmica que cerca a decisão do STF. A confusão sobre o papel do jornalista é tanta que ele já foi comparado até a um chefe de cozinha. A má compreensão aumenta com a ilusão criada pela internet de que qualquer um pode ser repórter: basta dispor de uma máquina fotográfica e da sorte de presenciar um acontecimento. Portanto, não custa reafirmar que ainda que o canudo não seja necessário, a formação é.

Começando pelo óbvio, a universidade constitui um avanço em relação ao autodidatismo e, mesmo imperfeita como a nossa, não pode ser dispensada, mas sim aperfeiçoada. Qualquer determinação em contrário cheira a obscurantismo. Não vale argumentar com as exceções: "Fulano foi um grande jornalista sem ter botado os pés numa faculdade." O presidente do STF citou o caso de García Márquez, Vargas Llosa, Nelson Rodrigues, deixando a impressão de que eles foram excelentes porque não tinham diploma.

Como o jornalista é um especialista em assuntos gerais que não precisa saber tudo, só saber quem sabe, alega-se que sua eventual carência teórica será suprida no dia a dia por especialistas de outras áreas. Trata-se de uma valiosa contribuição, mas que não substitui a formação universitária com todo o seu patrimônio cultural acumulado, além do ensino da língua. Um grande economista não será necessariamente um bom repórter de economia, da mesma maneira que o Prêmio Nobel de Química ou Física não será o editor ideal da seção de Ciência. Eles funcionarão melhor como fontes, articulistas, colaboradores. O que faz a diferença entre o especialista e o jornalista é a capacidade que este tem de traduzir o saber específico daquele numa mensagem palatável para um público leigo.

Isso exige preparação técnica, know-how, aprendizado: como apurar, como escrever, como transformar em notícia, por meio de uma linguagem própria, um determinado conteúdo. Pode-se adquirir esses conhecimentos na prática, numa redação de jornal, como eu que, sem diploma, fui professor de jornalismo por 40 anos e sou jornalista há mais de 50. Mas é essa experiência atípica que reforça em mim a certeza de que é imprescindível a formação acadêmica. Ela não é tarefa das empresas. Grande Marcos Jaimovich! Quantos perseguidos políticos da ditadura militar foram amparados por ele! Com sua ajuda e por seu intermédio, Oscar Niemeyer bancou financeiramente inúmeros exilados em Paris. Morreu esta semana quase anonimamente, como sempre viveu.

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Fonte:  O Globo Online

Protestos »

[ 18 de Junho de 2009 | 4 feedbacks » | 1304 visualizações]

"A ideia de que qualquer um pode produzir jornalismo é de uma estupidez tremenda. E mais. Nenhum jornal deixou de contratar colaboradores, nos últimos 40 anos, para atuar como articulistas ou especialistas em assunto. A tentativa aqui dos jornalões e do ministro Gilmar Mendes é tentar impor um nivelamento geral, por baixo, enquadrando os que se opõem a esse discurso maroto da defesa da liberdade de expressão. Buscam homogeneizar as condutas dos repórteres independentes." (Olímpio Cruz Neto, jornalista, assessor de imprensa e professor de jornalismo. Trabalhou no Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, O Globo e Correio Braziliense, entre outros jornais da imprensa nacional)

"As pessoas esquecem que os jornais vão e vêm. O jornalismo, não. As pessoas vão sempre precisar de notícia e informação. Sem informação não se administra um negócio, não se vende ingresso para o teatro, não se divulga uma política externa. Todos os dias, nos jornais das cidades grandes ou pequenas, repórteres vão à rua para fazer o que não é feito por mais ninguém." (Gay Talese, escritor e jornalista norte-americano. Um dos criadores do movimento chamado de Novo Jornalismo, criado na década de 1960, que incorporava no jornalismo características literárias)

Após a decisão ridícula do Supremo Tribunal Federal (STF) de retirar a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, com argumentos imbecis, burros e mal fundamentados, eu, Aline Menezes, jornalista por formação (e não por deformação), compartilho com os meus amigos leitores a minha revolta contra esse tipo de desdém. Neste momento, pessoas motivadas pela tentativa de desqualificar, desvalorizar e reduzir os aspectos e impactos políticos e sociais do jornalismo, entre outros, batem no peito e se orgulham de tratar profissionais como verdadeiros ratos de laboratório.

 

Quero ser Juiz de Direito

Sem exigência de diploma

Gadelha Neto, jornalista

A decisão do STF, que dispensa o diploma de Jornalismo para o exercício da profissão, me abre um mundo novo: a possibilidade de ser Juiz de Direito e, quem sabe, até alçar voo rumo ao próprio Supremo.

Sim, porque a decisão deixou claro que a minha profissão não exige diploma porque não são necessários conhecimentos técnicos ou científicos para o seu exercício. Disse mais: que o direito à expressão fica garantido a todos com tal ?martelada?.

Tampouco a respeitabilíssima profissão de advogado e o não menos respeitável exercício do cargo de juiz pressupõem qualquer conhecimento técnico ou científico. Portanto me avoco o direito (e, mesmo, a obrigação), já que assim está decidido, de defender a sociedade brasileira diante dos tribunais e na própria condução de julgamentos.

Além de ser alfabetizado e, portanto, apto a ler, entender, decorar e interpretar nossos códigos e leis, tenho 52 anos (o que me dá experiência de vida e discernimento sobre o certo e o errado) e estudei ? durante o curso de jornalismo (!) ? filosofia, direito, psicologia social, antropologia e ética ? entre outras disciplinas tão importantes quanto culinária ou moda: redação em jornalismo, estética e comunicação de massa, radiojornalismo, telejornalismo, jornalismo impresso etc.

Com essa bagagem e muita disposição, posso me dedicar aos estudos e concorrer às vagas de juiz pelo Brasil afora, em pé de igualdade com os colegas advogados. Também posso pagar e me dedicar aos cursos especializados em concursos públicos para o cargo, se eu julgar necessário. E não é justo que me exijam, em momento algum, qualquer diploma ao candidatar-me ao cargo.

Afinal, se a pena de um jornalista não pode causar mal à sociedade (!!?), a de um juiz também não teria este poder de fogo. As leis ? e elas são justas em si ? existem para serem cumpridas e cabe a um juiz, tão somente ? usando da simplicidade do STF ? seguir a ?receita de bolo? descrita pelos nossos códigos. Assim sendo, um juiz não pode causar mal algum a ninguém, se seguir, estritamente, o que determina a lei. Concordamos?

Data venia, meus colegas advogados, por quem nutro o devido respeito (minha mãe, cunhada, irmão e sobrinha ? por favor, compreendam), quero ser juiz porque é um direito meu, assegurado pelo STF, e o salário de jornalista não está lá estas coisas.

Especial »

[ 7 de Abril de 2009 | 6 feedbacks » | 1603 visualizações]

O debate sobre a obrigatoriedade do diploma específico para o exercício do jornalismo no Brasil extrapolou todos os limites da razão, da ética e da honestidade intelectual. E se transforma num emaranhado confuso de aleivosias, sob o pesado silêncio dos jornalistas profissionais e dos estudantes de comunicação.

O reconhecimento do diploma, conquista que fundamentou o aprimoramento do jornalismo brasileiro, colocando limites na picaretagem que campeava nos tempos de Assis Chateaubriand e seus "carteiraços", está sob sério risco de desaparecer, sob os ataques de candidatos preguiçosos a uma profissão digna, construída com sacrifícios de vidas inteiras dedicadas à busca da verdade e com o suporte dos proprietários dos meios de comunicação e seu exército de yes-men.

Os polemistas sempre a postos para um bate-boca sobre qualquer assunto vão odiar a afirmação, mas esse debate não tem qualquer nobreza. (trecho do artigo "Jornalistas (profissionais), uni-vos!", de Luciano Martins Costa, publicado no Observatório da Imprensa)

Como disse minha querida Hanna Lewis, em resposta a tantas baboseiras faladas por aí contra a exigência do diploma de jornalimo para o exercício da profissão, repito que os atuais debates sobre esse assunto estão motivados muito mais pela tentativa de desqualificar a atividade jornalística no Brasil do que por qualquer outro interesse "digno de nota". Sim, desqualificar!

Ora, sabemos que nenhum canudo assegura a qualidade, a capacidade, a ética e tantas outras exigências para o exercício de nenhuma profissão. Se o argumento é que basta ter talento para ser jornalista, então tornemos isso mais abrangente: basta ter talento para ser médico; basta ter talento para ser assistente social; basta ter talento para ser advogado; basta ter talento para ser psicólogo; basta ter talento para ser professor universitário de história et cetera. Sendo assim, vamos colocar em prática o que prevê o artigo 5º da Constituição Federal de 1988: "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença".

O que vejo mesmo é gente desinformada e de raciocínio curto reduzindo a função do jornalismo. Gente que desconhece a história de luta de mais de 80 anos pelo exercício da profissão com qualidade, respeito e liberdade de expressão. Neste país, onde políticos são donos de veículos de comunicação, onde empresários se submetem às mais perversas formas de corrupção, onde as pessoas compartilham "honestidades relativas"... neste país, onde há milhões de analfabetos, insegurança pública rolando solta por aí, onde há gente sem o mínimo de compromisso ético... neste país, não me espanta que debates desse tipo sejam tão fraudulentos.

E outra... não sejamos tolos: jornalistas não são formadores de opinião! Não nos deem esse legado autoritário.
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Hoje, terça-feira, 7 de abril de 2009, comemora-se o Dia do Jornalista.