Perguntem aos pensadores, aos teóricos, aos filósofos que se esforçam por fazer um "trabalho racional": eles lhe confirmarão, se forem sinceros, que o pensamento frio é estéril e que o trabalho intelectual só é fecundo sob a condição de ser movido por uma vibração emocional. As contruções teóricas são arquiteturas vazias, quando não são habitadas pela palpitação do imaginário, pelo júbilo e pelo entusiasmo. (Michel Lacroix, filósofo francês, p. 88)
... aprendo a sutileza das coisas imperceptíveis. O cinismo - enquanto indiferença à dor do outro - é o vício comum da alma equivocada. Até mesmo as certezas são, às vezes, fagulhas da imaturidade. Exatamente por isso cabe ao tempo, substantivo vagaroso demais para quem sofre, a coragem de provar que tudo passa. O tempo possui a intrepidez necessária para aquietar a ventania de nossa existência.
Aqui dentro, embrulho cuidadosamente a esperança. Pois é ela quem me ensina certas emoções. É ela quem me alcança as lágrimas noturnas. E quem me levanta todas as manhãs. Aqui dentro, permanece o som silencioso, mas não vazio, de sensações doídas. Palavras que jamais poderei dizer, desamparadas. Sentimentos que enfraquecem o meu corpo: hoje cada minuto passa de hora em hora.
Leia o texto completo »Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez me faz companhia. (O narrador em A hora da estrela, de Clarice Lispector)
É verdade: às vezes, temos vontade de estapear as pessoas, numa tentativa de fazê-las acordarem dos mundinhos medíocres e banais onde vivem. Temos vontade de sacudi-las e obrigá-las a serem mais perspicazes. É quando nos damos conta de que a vida é assim, cheia de gente nojenta e plastificada, que nem mesmo o mais talentoso do cinismo ácido consegue alcançá-la.
Colocamo-nos de pé, diante do espelho, e nos transformamos em pequenas memórias póstumas, atacando tudo que procede do homem, sobretudo do homem natural. Não suportamos aquelas gentes de sorrisos forçados, olhares indiscretos e gestos descaradamente perversos e maldosos. Queremos apenas encontrar alguém com quem possamos conversar de igual para igual, desarmados.
Nesta época de laços humanos fragilizados e sociedades líquidas (como diria o sociólogo polonês Zygmunt Bauman), o que vemos mesmo é a neurose coletiva da burrice robotizada [o quê?]. Não se contempla mais o indivíduo, com todas as suas complexidades e particularidades, mas somos todos aviltados, mediante trocas simbólicas do que seja realmente vida. Patifes em cenas patéticas!
Resta-nos esperança: termos segurança do que somos, independentemente da idiotice e maledicência em nossa volta, dos gostos e padrões massificados, dos seres controlados pela vaga ideia da felicidade e prazeres instantâneos. Corpos sarados e mentes adoecidas. Ditam-nos o que é ser bonito, como se o homem já houvesse alcançado a proeza de desvendar o belo. Tolos em cenas tolhidas!
... apenas rio em mim.
[...] Para as pessoas sem talento, mas pretensiosas, não resta outra coisa senão criticar os verdadeiros talentos. (Irina Nikoláievna Arkádina, em A gaivota, de Anton Tchekhov)
Não há limites para as fragilidades e imperfeições humanas. Rio por dentro quando pessoas fingem ser simpáticas, solidárias, bondosas e infinitamente generosas. Sim, fingem. O que realmente somos não se mede nem se prova (ou comprova) por aquilo que externamos. Claro: o que de fato somos está dentro e, uma hora ou outra, transbordará. Porém, nem tudo que "transborda" como "coisas boas" é tão verdadeiro quanto parece. E nem tudo de bom que temos ou somos chega tão evidente aos olhos do outro. Daí as injustiças dos julgamentos precipitados.
Creio na existência de pessoas com boa disposição para serem honestas, lúcidas e, acima de tudo, íntegras. São seres capazes de perceber a pequenez do homem, porém, não se apequenam com isso. Pessoas que reconhecem suas próprias imperfeições, mas nem por isso se acomodam. Sim, tenho certa predileção por comentar o que temos de mal e mau. E ser assim não me provoca nenhuma culpa. Alguns aprendem nas Escrituras que, não fosse a genuína graça de Deus, o caos se instalaria em nós até os ossos.
Às vezes, preferimos silenciar o que pensamos por medo de sermos incompreendidos ou mal interpretados. Ora, pensar assim, até certo ponto, parece-me sensato. Mas, se tomado como regra diária e geral, transforma-nos em cínicos e covardes, seres incapazes de correr o risco de provocar, mesmo sem intenção, o desconforto e a antipatia de determinados grupos. Afinal de contas, só os tolos e inseguros tentam agradar a todos. Somente os ingênuos ou dissimulados agem assim. Porque não suportam (nem comportam) a ideia de não parecerem "perfeitos".
Pessoas se irritam quando não nos preocupamos em bancar ou sustentar a boa imagem. Quando não nos obrigamos a corresponder às expectativas do outro. Ora, estejamos seguros do que somos e não viveremos frustrados, amargurados. Não devemos sufocar nossa rebeldia e nosso desejo de andar na contramão deste mundo líquido, só porque nos chamarão gauche. Quem se importa?
Somos bonequinhos de luxo: contemplamos a beleza exterior, tomamos café em frente à famosa joalheria...
... Mas tudo não passa de ambição e futilidades.