A morte existe e, seja lá o que for, ela importa. Tudo o que acontece traz consequências, e tanto a morte como as consequências são irrevogáveis e irreversíveis. Você pode, do mesmo modo, dizer que o nascimento não importa. Ao olhar para o céu noturno, pergunto-me se há algo mais certo do que isto... (Lewis, p. 39)
Rápida e indigesta: assim defino esta sociedade fast food, que não tem tempo sequer para as experiências abstratas. Que não mais assimila a solidez dos amores perdidos (ou presentes). Que nos faz adquirir coisas e sensações estúpidas, a exemplo dos meus medos de raios e cigarras. Não são as lágrimas piegas que procuro, mas o encantamento da vida que pulsa em profusão.
Busco o desespero em suaves doses de melancolia. O sentido exato de nossas perplexidades, as contradições internas e em simetrias. Valores meus, só meus. Sem donos nem rostos nem definições, assim: temporariamente sem vírgulas. Minha fé não está em abandono. Ela é concreta - mesmo quando não a sinto tão perto. Tão grande. Tão convicta de ser quem ela é.
Leia o texto completo »É raro o ser humano mostrar-se totalmente sincero ou totalmente hipócrita. A disposição muda, seus motivos são confusos e ele em geral se engana bastante em relação a quais sejam seus motivos... (C.S.Lewis)
O escritor irlandês C.S.Lewis (1898-1963), durante os últimos treze anos de sua vida, trocou correspondências com uma americana. Lewis e a senhora dos Estados Unidos nunca se encontraram pessoalmente. Mesmo fragilizado pelos seus problemas de saúde (sem contar com o período em que sofreu a perda de sua mulher Joy), ele sempre demonstrou em suas cartas a preocupação com o outro. A honestidade de quem sabe de suas imperfeições e, nem por isso, esconde-se por trás de suas virtudes.
No início, pensei que Cartas a uma senhora americana me daria apenas o prazer de ler as cartas escritas por um bilhante escritor, aquele ser inatingível e inacessível aos olhos dos fãs. Até o momento em que enxerguei a beleza do homem Clive Staples Lewis (Jack, se preferir). Aquela beleza sobre a qual escrevo de vez em quando. E que admiro sinceramente. Beleza que não se encontra com facilidade, que não está à venda, que quase nunca encontramos no ambiente de trabalho, no meio acadêmico, nas ruas da cidade, na esquina, nem nas lojas Tiffany's.
A simplicidade de quem revela dor: "... Não posso descrever a aparente irrealidade de minha vida desde então [a morte de Joy]. (...) Tentarei escrever de novo quando tiver mais controle sobre mim mesmo". A certeza de que deveríamos, sim, viver como os lírios dos campos. Deveríamos, sim, compreender o quanto somos miseráveis. E que, se há alguma beleza em nós, não é fruto da seleção natural. Nem muito menos dos nossos antepassados. Se há alguma beleza em nós, sejamos gratos, afinal de contas...
... "um homem com as mãos cheias de pacotes não pode receber um presente".
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LEWIS, C.S. Cartas a uma senhora americana. Tradução Lenita Esteves. São Paulo: Editora Vida, 2006, pp. 91, 112 e 120.
Parodiando C.S. Lewis, não precisamos de mais partidos (ditos) "cristãos", não precisamos de mais autores de livros devocionais ou de música gospel. Precisamos - ou melhor, estamos desesperadamente necessitados - de autênticos cidadãos autenticamente engajados com os problemas do seu tempo e da sua sociedade, exercendo os seus dons e talentos para fazer diferença nesse mundo, sendo menos coniventes e menos "gado"[1]. Quem sabe assim possamos evitar mais declarações da morte de Deus. (Gabriele Greggersen, em artigo intitulado "Politicamente omitido", publicado no site Teologia Brasileira )
[1] Metáfora usada por Nietzsche para designar a condição daquele que Proudon batizaria "proletário", ou seja, o despojado de tudo, exceto a prole, e preparado para uma única coisa: o abate.
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