O MUNDO É UM CAOS; O BRASIL SÃO VÁRIOS...
Tropecei. Caí. Torci o pé esquerdo. Levaram-me ao hospital, diga-se de passagem: público. Fila de espera. Peregrinação. Primeiramente, pega-se uma ficha numérica (nem todas as fichas são numéricas). Meu número é 100. Depois, passa-se numa sala de "triagem", onde o médico diz o tipo de especialista que deverá ser consultado. No meu caso, já sabia que era ortopedista. Não havia mistérios. Mas, ainda assim, precisei esperar. Após receber ficha indicando "ortopedista", dirijo-me ao balcão de preenchimento de dados pessoais. Em seguida, fico numa fila aguardando ser chamada. Quando sou chamada, aguardo numa outra fila. Desta vez, dentro do recinto médico. Eles eram inexperientes. Entendo. Eram dois. Deviam ser da década de 1980. Assim como eu sou. Um deles me atendeu. Rapidamente, sem nem examinar direito o meu pé, apenas perguntou: dói? E eu, como boa menina que sou, disse: o senhor poderia tocar no meu pé pra eu saber onde dói? Ele tocou. Doeu. Daí, ouvi do médico: você será encaminhada à sala de raio-X, acho que houve fratura, não deve ter quebrado, mas...
Dirijo-me ao balcão da outra sala. Aguardei por mais trinta minutos. Aline fulana de tal!!!! Sou eu. Entrei numa outra sala de espera. Pronto! Chamaram-me de novo. O 'rapaz do raio-X' era mal humorado, como quase todos os outros funcionários do hospital. Ele pegou o meu pé e me disse a posição certa pra eu ficar. Não consegui fazer o que ele me pediu. Impaciente, o 'rapaz do raio-X' pegou meu pé com força. Senti dor. De raiva. Tirado o raio-X, era a vez de aguardar o resultado. Após o resultado, voltei àquela sala dos médicos inexperientes. A porta estava fechada. Não tinha ninguém. A fila só crescia. Não agüentava mais. Estava cansada, o pé estava cada vez mais inchado, minha barriga vazia, estava com sede.
Depois de muito nervosismo de todos da fila, alguém abriu a porta. Eram outros dois médicos. Outros plantonistas. Um deles olhou o raio-X e disse: é, pelo visto, não quebrou nada; provavelmente, os ligamentos se romperam; vou encaminhá-la à sala ao lado para colocar uma tala na perna. Você ficará de repouso por 14 dias. Olhei nos olhos do doutor e perguntei: o senhor poderia me tirar algumas dúvidas? o senhor vai me passar algum antiinflamatório? já que o senhor não tem certeza (até mesmo porque pelo raio-X não tem como saber) se os ligamentos se romperam, existe algum exame especializado? O médico me olhou como se olha para um idiota e disse: bom, como eu falei pra você, coloque uma tala; não vejo necessidade de você fazer um exame especializado, até porque teria que ser pago, pois aqui não faz. Peguei o atestado, a receita e agradeci. Não deve ser fácil ser médico em hospital público. O salário deve ser desestimulante. As condições de trabalho devem ser horríveis.
Aguardei na sala ao lado. Era a última paixão de Cristo. Fiquei um tempão esperando o 'homem da tala'. Ele abriu a porta algumas vezes. Numa delas, fechou na minha cara. Literalmente. Quando entrei, ele disse: você está com pressa, né? Respondi: o que você acha? estou aqui desde as 13h30, já são 18h55... Ele retrucou: mas hospital público é assim mesmo, você precisa entender. Naquele momento, decidi não prolongar a conversa. Seria abuso demais da minha parte. Imagine!!! Tanta gente esperando, tanta gente na mesma situação que eu, tanta gente em piores condições que eu... Imagine!!! Era muita arrogância de minha parte querer um atendimento digno. Querer ser tratada como gente. Imagine!!! Era apenas um hospital público... Será que eu não tinha percebido? Pobre Aline! Quem mandou tropeçar?
___________
NOTA: Ainda estou de repouso. Espero nunca mais precisar do Hospital de Base.
NO FOOD
Uma beleza entre aspas
Sueli é uma adolescente de dezesseis anos, filha mais nova de um casal pertencente à pequena burguesia. A anorexia começou aos doze anos durante as férias com seus pais. Queria perder peso, então decidiu mudar sua alimentação, "torná-la mais saudável", segundo ela. No começo, foi apenas uma mudança nos alimentos habituais, mas que ao longo de algum tempo transformou-se numa árdua tarefa de transpor os limites do seu corpo. (1)
"Queria ser seca, não ter um pingo de gordura." (Sueli)
Tão fácil como encontrar uma criança que gosta de sorvete, é encontrar revistas de moda cultuando o perfil "mulheres magérrimas". Espaço na mídia tem de sobra para esse tipo de abordagem. Talvez, por isso, o culto à magreza esteja longe de acabar, ainda mais quando somos bombardeadas, diariamente, por "10 formas de como perder peso em 10 dias"; "aprenda a perder peso e se tornar uma Kate Moss (2)"; "os 100 segredos da beleza de Gisele Bündchen (3)", e por aí afora.
Neste momento, a notícia mais recente que temos sobre as graves conseqüências de quem persegue a "imagem corpórea da magreza" é a da modelo Ana Carolina Reston Marcan, 21, morta por anorexia nervosa. (Ver outra notícia)
O drama de Carolina Reston trouxe de volta uma antiga discussão: a anorexia. "Anorexia nervosa é um transtorno alimentar quase exclusivo das mulheres. Elas constituem 95% dos casos e o número não pára de aumentar, principalmente na faixa dos 12 aos 18 anos. Infelizmente, na internet há vários sites em que meninas anoréticas trocam receitas para emagrecer cada vez mais e exibem com orgulho seus corpos esquálidos", disse o médico Drauzio Varella, durante exibição do 12º episódio do "Questão de Peso".
Quando assisti pela TV à reportagem sobre a morte da modelo, vim para a internet e vi um número enorme de matérias e artigos sobre o assunto. A vítima fatal da ditadura da "beleza" (ou da magreza?), desta vez, tinha sido uma menina de 21 anos, que queria seguir o sonho de ser modelo, de desfilar pelas maiores grifes do mundo, de permitir à família condições melhores de vida. Quase ninguém do meio da moda quis falar sobre o assunto. E os que falaram, a maioria minimizou a tragédia. Por que será? Restou o espaço para os psiquiatras, psicólogos e nutricionistas. Nas entrevistas (4), senti falta de figuras como sociólogos e antropólogos. Uma pena! Certamente, eles teriam (e têm) muito o que dizer.
___________________
(1) GIORDANI, Rubia Carla Formighieri. A Experiência Corporal na Anorexia Nervosa: Uma Abordagem Sociológica. Dissertação de mestrado em Sociologia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2004.
(2) A modelo britânica Kate Moss, nos anos 90, foi a musa da grife Calvin Klein, exibindo seu "look" esquelético.
(3) Gisele Bündchen tem 1,79 cm de altura e 52 quilos. O seu Índice de Massa Corporal (IMC) é de 16,23. Ou seja, abaixo do mínimo de 18,5. Dizem que ela é magra naturalmente.
(4) Entrevista com Mauro Fisberg.