É PROIBIDO PENSAR
Num daqueles brilhantes aforismos que iluminam toda uma paisagem, como um relâmpago, Nietzsche proclamou: "Errar é covardia!" Isto é, se deixarmos de distinguir a verdade não é por falta de cultura, de diplomas acadêmicos, e sim por não termos bastante coragem. (Rollo May, O homem à procura de si mesmo, Editora Vozes, 1982, p. 205)
Procuro alguém pra resolver meu problema
Pois não consigo me encaixar nesse esquema
São sempre variações do mesmo tema
Meras repetições
A extravagância vem de todos os lados
E faz chover profetas apaixonados
Morrendo em pé rompendo a fé dos cansados
Que ouvem suas canções
Estar de bem com vida é muito mais que renascer
Deus já me deu sua palavra
E é por ela que ainda guio o meu viver
Reconstruindo o que Jesus derrubou
Recosturando o véu que a cruz já rasgou
Ressuscitando a lei pisando na graça
Negociando com Deus
No show da fé milagre é tão natural
Que até pregar com a mesma voz é normal
Nesse evangeliquês universal
Se apossando dos céus
Estão distantes do trono, caçadores de Deus
Ao som de um shofar
E mais um ídolo importado dita as regras
Para nos escravizar
É proibido pensar (5x)
Procuro alguém pra resolver meu problema
Pois não consigo me encaixar nesse esquema
São sempre variações do mesmo tema
Meras repetições
Meras repetições
É proibido pensar
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Letra e música: João Alexandre
Violões e voz: João Alexandre
Cajón, pandeiro, caxixi, triângulo e ganzá: Osmário Marinho
O MUNDO É UM CAOS; O BRASIL SÃO VÁRIOS...
Tropecei. Caí. Torci o pé esquerdo. Levaram-me ao hospital, diga-se de passagem: público. Fila de espera. Peregrinação. Primeiramente, pega-se uma ficha numérica (nem todas as fichas são numéricas). Meu número é 100. Depois, passa-se numa sala de "triagem", onde o médico diz o tipo de especialista que deverá ser consultado. No meu caso, já sabia que era ortopedista. Não havia mistérios. Mas, ainda assim, precisei esperar. Após receber ficha indicando "ortopedista", dirijo-me ao balcão de preenchimento de dados pessoais. Em seguida, fico numa fila aguardando ser chamada. Quando sou chamada, aguardo numa outra fila. Desta vez, dentro do recinto médico. Eles eram inexperientes. Entendo. Eram dois. Deviam ser da década de 1980. Assim como eu sou. Um deles me atendeu. Rapidamente, sem nem examinar direito o meu pé, apenas perguntou: dói? E eu, como boa menina que sou, disse: o senhor poderia tocar no meu pé pra eu saber onde dói? Ele tocou. Doeu. Daí, ouvi do médico: você será encaminhada à sala de raio-X, acho que houve fratura, não deve ter quebrado, mas...
Dirijo-me ao balcão da outra sala. Aguardei por mais trinta minutos. Aline fulana de tal!!!! Sou eu. Entrei numa outra sala de espera. Pronto! Chamaram-me de novo. O 'rapaz do raio-X' era mal humorado, como quase todos os outros funcionários do hospital. Ele pegou o meu pé e me disse a posição certa pra eu ficar. Não consegui fazer o que ele me pediu. Impaciente, o 'rapaz do raio-X' pegou meu pé com força. Senti dor. De raiva. Tirado o raio-X, era a vez de aguardar o resultado. Após o resultado, voltei àquela sala dos médicos inexperientes. A porta estava fechada. Não tinha ninguém. A fila só crescia. Não agüentava mais. Estava cansada, o pé estava cada vez mais inchado, minha barriga vazia, estava com sede.
Depois de muito nervosismo de todos da fila, alguém abriu a porta. Eram outros dois médicos. Outros plantonistas. Um deles olhou o raio-X e disse: é, pelo visto, não quebrou nada; provavelmente, os ligamentos se romperam; vou encaminhá-la à sala ao lado para colocar uma tala na perna. Você ficará de repouso por 14 dias. Olhei nos olhos do doutor e perguntei: o senhor poderia me tirar algumas dúvidas? o senhor vai me passar algum antiinflamatório? já que o senhor não tem certeza (até mesmo porque pelo raio-X não tem como saber) se os ligamentos se romperam, existe algum exame especializado? O médico me olhou como se olha para um idiota e disse: bom, como eu falei pra você, coloque uma tala; não vejo necessidade de você fazer um exame especializado, até porque teria que ser pago, pois aqui não faz. Peguei o atestado, a receita e agradeci. Não deve ser fácil ser médico em hospital público. O salário deve ser desestimulante. As condições de trabalho devem ser horríveis.
Aguardei na sala ao lado. Era a última paixão de Cristo. Fiquei um tempão esperando o 'homem da tala'. Ele abriu a porta algumas vezes. Numa delas, fechou na minha cara. Literalmente. Quando entrei, ele disse: você está com pressa, né? Respondi: o que você acha? estou aqui desde as 13h30, já são 18h55... Ele retrucou: mas hospital público é assim mesmo, você precisa entender. Naquele momento, decidi não prolongar a conversa. Seria abuso demais da minha parte. Imagine!!! Tanta gente esperando, tanta gente na mesma situação que eu, tanta gente em piores condições que eu... Imagine!!! Era muita arrogância de minha parte querer um atendimento digno. Querer ser tratada como gente. Imagine!!! Era apenas um hospital público... Será que eu não tinha percebido? Pobre Aline! Quem mandou tropeçar?
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NOTA: Ainda estou de repouso. Espero nunca mais precisar do Hospital de Base.
PELAS OPERÁRIAS, POR ALANA, POR TODAS NÓS
Sem sexismos.
Estavam lá: as operárias de uma fábrica de tecido. Em homenagem a elas, hoje celebramos o Dia Internacional da Mulher. O trágico incêndio que matou, em Nova York, mais de 130 tecelãs é um símbolo da luta por melhores condições de trabalho. Contra as injustiças sociais. Contra a violência. A favor de mim e de você.
Não estamos mais em 1857. Dois mil e sete é o seu nome. Um ano lamentavelmente inesquecível para os pais de Alana Ezequiel, a menina de 12 anos que foi baleada e morta durante troca de tiros entre policiais e bandidos, no último dia 5 de março, no Rio de Janeiro. O desespero da família de Alana ficou estampado nos jornais, assim como a luta das operárias estará estampada no 8 de março de todos os anos.
Não quero despertar poesia. Faço apenas uma melancólica homenagem a todas as mulheres e meninas que se foram...
Sem que, ao menos, houvesse um amanhã!
Um amanhã sem violência.
Sem choros.
... lágrimas.