AGNES DE DEUS

30/03/2008 - Categorias: Cinema, Músicas, Citações, Poema/Poesia, Minhas reflexões  

A boa poesia é a música da matemática. Números que cantam. Olhem além das palavras para compreenderem os seus sentidos. (Dr. Fredericks, personagem do filme O bom pastor)

Desde a infância, tenho o hábito de guardar frases. De identificá-las nos livros, nas músicas, nas ruas e no cinema. Há sempre alguma frase que traduz perfeitamente a maneira como percebemos a vida. Como sentimos as pessoas. Como identificamos o nosso lugar no mundo. Haverá alguém que já disse o que gostaríamos de dizer. Que já pensou o que poderíamos pensar. Ou até mesmo o que nem pensaríamos. Ou nem diríamos. E nada me parece novo. Ainda que dito pela primeira vez.

A bondade humana é um mito. E somente alguém não-humano seria capaz de produzir tanta beleza na vida. De plantar no homem e extrair dele alguma coisa boa. Sim, chamem-me de incrédula. Mas é assim que é. Somos todos tolos. E pensamos que somos mais que isso. Pergunto-me: como sobrevivem as pessoas demasiadamente insensíveis? Não sei. Nada há de mais atraente do que a linguagem da alma perspicaz. Mesmo que ela nos pareça piegas. E eu rio de nossa capacidade fantasiosa e infantil de considerarmos o outro anjo.

O homem não me surpreende.

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O bom pastor (2006, EUA, The Good Shepherd) - filme dirigido por Robert De Niro, com Matt Damon (Edward Bell Wilson), Angelina Jolie (Clover/Margaret Ann Russell), Alec Baldwin (Sam Murach), William Hurt (Philip Allen), Billy Crudup (Arch Cummings), Joe Pesci (Joseph Palmi), John Turturro (Ray Brocco) e Michael Gambon (Dr. Fredericks) no elenco.

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SE O CÉU NUMA TORRENTE CHORA

15/01/2008 - Categorias: Poema/Poesia, Minhas reflexões  

[...] Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs
poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto,
aprendi a amar no cárcere.
(MAIAKOVSKI, p. 106)

Aquela dor que inibe o estancar do sangue, da cólera dos amores literários, do movimento curvilíneo da vida, que nem sempre nos previne das feridas que nos levam ao chão. O levantar dos olhos não é tão simples como nos ensinam os livros imaturos, como se tivéssemos a força criadora de dizer que nada mais dói. Que tudo passou. Quem nos ensinou a vida?

Se tivéssemos lido todos os livros, os clássicos, os finais felizes, as tragédias gregas, toda a história primitiva; se tivéssemos observado todos os museus, a arquitetura, os pergaminhos dos deuses; se tivéssemos descoberto que a admirável pintura de hoje ou a exposição do dia seguinte, em geral, foi o tormento arrasador do artista; se tivéssemos. Ainda assim estaríamos aqui, escrevendo estas mesmas linhas, sentindo a mesma dor, porque a vida não nos parece querer antecipar respostas.

Impossível andar e seguir adiante sem nunca precisar olhar para trás. Impossível. E não nos enganem dizendo o contrário. Como se ainda fôssemos tolos, ingênuos, puros. Sejamos honestos com a falta de inocência que nos acomete a alma, quando deitamos perdidos dentro de nossa dor e agonia particulares. Tão em nós, que sequer podemos dividi-los. Deixe-nos aqui calados. Sentindo. Apreendendo. E não por acaso sempre haverá exposição de arte. Porque nunca faltará inquietação na alma. Ela precisará sangrar, sangrar muito, para que se crie a beleza semelhante à do Louvre.

A vida (sim, ela mesma) necessita - de algum modo sombrio - nos ensinar. Ela não se apressa, nem muito menos a dor se apressa para acabar. A dor pára. Porque é nesse instante que observamos além do cárcere. Até a mais alegre e comovente das pinturas só nos parece possível por causa de uma alma atormentada. Se não fosse assim, quem perderia seu tempo, se o céu numa torrente chora...

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MAIAKOVSKI, Vladimir. Trecho do poema "Adolescente". In: Vida e poesia. São Paulo: Martin Claret, verão de 2007.

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ODE CRISTALINA

15/12/2007 - Categorias: Poema/Poesia, Minhas reflexões  

LIÇÃO

Tarde, a vida me ensina esta lição: a ode cristalina é a que se faz sem poeta. (Carlos Drummond de Andrade)

Vez ou outra, temos a sorte de encontrar pessoas com as quais podemos dividir a nossa alma. Pessoas que possuem a percepção exata do que significa aproveitar a vida. Pessoas que - mesmo imperfeitas como nós - parecem angelicais. Porque dentro delas há sempre espaço para nutrir o que é puro, o que é honesto, o que é afável.

Há momentos em que precisamos continuar descalços, principalmente quando os nossos pés estão cansados e feridos. Enquanto andamos desprotegidos, Deus sempre providencia os nossos guardiões.

Aquelas espécies de anjos.

Se possível, assista ao vídeo "Inocência e generosidade"...

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ANDRADE, Carlos Drummond de. Corpo. 16ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record, 2002, p. 85.

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