A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende. (Arthur Schopenhauer)
A árvore que não apressa a sua seiva
por Aline Menezes
Além de viver, o que mais me interessa é falar, ler e escrever sobre a vida. Observo diariamente pessoas vivendo como se fossem imortais, organizando os seus mundos exteriores sem se darem conta de que a existência humana carece de um pouco de solidão: de momentos nos quais você se recolhe e pensa sobre o essencial da vida, o que de fato importa em relação a todos nós, aos amores, às amizades, ao dia a dia... Mesmo uma tosse alérgica cria esse efeito em mim.
O mundo pode ser um palco, mas o elenco é um horror. (Oscar Wilde)
Quem dera fosse ao menos a bunda redunda de Drummond
por Aline Menezes
Na TV, tenho acesso apenas a canais gratuitos, o que significa dizer que, aqui em casa especificamente, restam-me cinco opções clássicas: SBT, Record, Globo, Rede TV! e Band. Assim que liguei a televisão ontem à noite, fui surpreendida com a imagem de uma bunda gigante num movimento um tanto quanto eroticamente [in]expressivo, balançando ao som de Mc Pocahontas (sim, o calendário maia não deveria falhar!).
Sinto que envelheci de modo precoce, pois tudo me parece patético já há algum tempo... É insuportável saber que o contingente de pessoas e experiências interessantes no mundo é bastante reduzido, a julgar pela TV aberta, pelo Facebook e pelo Brasil. Não por acaso, um espírita que me encontrou na Asa Norte olhou para mim e disse: "você tem um espírito velho". Segundo ele, o meu espírito já reencarnou muitas vezes (deve ser um espírito demasiadamente teimoso). E ele completou: "aposto que você tem mais interesse por pessoas mais velhas que você"...
[...] Em mim, também, foram destruídas muitas coisas que julgava iriam durar para sempre, e novas coisas se edificaram, dando nascimento a penas e alegrias, que eu não poderia prever então, da mesma forma que as antigas se me tornaram difíceis de compreender. (Marcel Proust em Em busca do tempo perdido - No caminho de Swann, p. 41)
Reconhecer na dor o privilégio da vida é o que há de grandioso por aqui. Recolher os cacos, jogar fora o lixo, selecionar os benefícios da angústia e dar mais um passo... é assim que se prossegue.
Despir-se internamente é para os corajosos. Bem poucas coisas valem a pena nesta vida; uma delas é desavergonhar-se, isso é para as almas desprendidas. Já amei algumas vezes e me entreguei por inteira, ainda que essa inteireza nem sempre tenha sido física (isso pouco importa, às vezes). Porque, para mim, só assim é possível sentir o invisível nos tocando por completo.