VENHA VER O PÔR-DO-SOL
- Ver o pôr-do-sol? Ah, meu Deus... Fabuloso, fabuloso! Me implora um último encontro, me atormenta dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôr-do-sol num cemitério. (p. 27)
Se nos convidam para a vida, então que não nos mostrem a morte. Até mesmo porque sabemos que há "tantas violetas velhas sem um colibri". E isso nos parece trágico. Ou, no mínimo, dramático. E, se pararmos pra pensar, enlouqueceremos. Só de imaginar o quanto há pessoas cínicas...
Ai, que nojo!
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TELLES, Lígia Fagundes. Trecho do conto "Venha ver o pôr-do-sol". In: ___ Antologia: Meus contos preferidos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
VIAGEM DE VENTANIA
"A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si. De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho. Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais." (p. 207)
Para nos sentirmos seguros, queremos prever as ações do outro. O outro é estranho, portanto, provoca-nos incertezas, dúvidas, medo. Era assim que Ana, personagem de Clarice Lispector, encarava a vida. Os seus dias eram todos iguais. Sem surpresas. Sem sobressaltos. Conseqüentemente, sem paixão.
Ana teve o seu momento de lucidez: por um instante, deparou-se com o desconhecido. Sentiu que dentro dela ainda havia espaço para o despertar. A propósito, quem é o forte que consegue controlar a sua sombra por muito tempo? Quem é o forte que lidera o mundo ao seu redor? Seremos sempre inúteis na tentativa de adivinhar a vida.
Seria bom dizer: não sejamos seres despedaçados. Mas, na verdade, já somos. Totalmente despedaçados. Mesmo que não acreditemos nisso. O jardim é tão bonito! Será que é por isso que temos medo do inferno? Perguntemos ao mundo sombrio de Ana. "Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas"...
E quando faremos parte das raízes negras e suaves do mundo? Sabemos, apenas, que cada um adormece dentro de si.
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LISPECTOR, Clarice. Trecho do conto "Amor". In: ___ Os melhores contos de Clarice Lispector. (Seleção Walnice Nogueira Galvão). São Paulo: Global Editora, 1996.
MACABÉA - ALGUMAS PÁGINAS DE ESTRELA
Macabéa entendeu uma coisa: Glória era um estardalhaço de existir. E tudo devia ser porque Glória era gorda. A gordura sempre fora o ideal secreto de Macabéa, pois em Maceió ouvira um rapaz dizer para uma gorda que passava na rua: "a tua gordura é formosura!" A partir de então ambicionara ter carnes e foi quando fez o único pedido de sua vida. Pediu que a tia lhe comprasse óleo de fígado de bacalhau. (Já então tinha tendência para anúncios.) A tia perguntara-lhe: você pensa lá que é filha de família querendo luxo? (Rodrigo S. M.)
Não é por acaso que o filósofo Theodor W. Adorno (1903-1969), ao falar sobre a "Indústria Cultural" (ver nota 3), afirmou que esta impede a formação de indivíduos independentes, capazes de julgar e de tomar decisões de maneira consciente. Embora o trecho acima não seja o mais adequado para me referir à indústria cultural, ele me fez lembrar o quanto o indivíduo é influenciado e condicionado pelos "anúncios" de uma sociedade capitalista e 'desenfreadamente' desumana...
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LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 61.
NOTA (1): Hoje, 23 de abril, é Dia Mundial do Livro, data instituída pela Unesco em 1995.
NOTA (2): Amanhã, 24 de abril, a exposição "Clarice Lispector - A hora da estrela" será aberta ao público, no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo.
NOTA (3): "Adorno e a Indústria Cultural"