[...] Podemos passar horas, dias na internet, e sermos incapazes de ter uma verdadeira relação humana com quer que seja... (Dominique Wolton, sociólogo francês)
O filósofo francês Michel Lacroix, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman e tantos outros pensadores contemporâneos nos chamam a atenção para os riscos desta nossa era: o primeiro fala de nosso "extravio emocional", o segundo desenvolve o conceito de "liquidez", e Dominique Wolton fala da ameaça da "solidão interativa".
Já há algum tempo que me assusta e me impressiona, por exemplo, a maneira como lidamos com o fenômeno das redes sociais, que, na minha opinião, nada (ou quase nada) têm de social. Até acredito em desdobramentos mais positivos (como diria o médico Flávio Gikovate). Mas, definitivamente, não nutro nenhum tipo de fascínio por essa excitação.
Minha impressão é a de que o v o y u e r i s m o, o exibicionismo, as fragilidades emocionais, as deficiências afetivas tomam proporções gigantescas na vida das pessoas, que adotam modos mais "sofisticados" (ou serão primitivos?) para a mutilação de sua existência, à medida que buscam no universo virtual, ao contrário do que dizem ou pensam, o seu esconderijo.
Nas palavras de Lacroix, em O culto da emoção, ele diz que o homem contemporâneo injeta uma substância dopante em sua vida emocional: "[...] Nossa atitude não é contemplativa, mas predatória, devoradora. Somos consumidores, de olho na oportunidade de ter experiências excitantes, insólitas, grandiosas" (p. 123).
Gikovate, em Sexo, afirma que nossa época trouxe o aumento de "adultos com características infantins relacionadas com a baixa tolerância a frustrações, contrariedades e limitações" (p. 13). E mais: "[...] estamos nos tornando adultos com propriedades infantojuvenis".
Ainda mais trágica é a afirmação de Bauman, em Medo líquido: "A humanidade tem agora todas as armas necessárias para cometer o suicídio coletivo, seja por vontade própria ou falha - para aniquilar a si mesma, levando o resto do planeta à perdição" (p. 96). Meu Deus!
Embora esses autores estejam tratando de questões mais específicas em suas obras, reuni aqui apenas fragmentos que nos levem à reflexão do que estamos perdendo em nossa época. E, no caso das redes sociais, o que mais percebo é a ilusão de determinados beneficios que elas parecem produzir.
Entre uma janela e outra, uma tela e outra, um clique e outro, foge-nos a ideia do que sejam relações humanas. Genuinamente humanas.
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BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
GIKOVATE, Flávio. Sexo. São Paulo: MG Editores, 2010.
LACROIX, Michel. O culto da emoção. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

3 comentários
É interessante perceber o quanto o ser humano não sabe se relacionar mesmo. Eu percebo pelas redes sociais que (mal) frequento. Pessoas escondendo-se sob máscaras de personalidades que criam para si mesmas e decepcionando-se quando no outro lado da tela dá de cara com um ser humano.
Beijos.
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