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DIAMANTES DE PEDAÇOS DE VIDRO

17 de setembro de 2007 414 visualizações 7 feedbacks »

Sentia-se só. (Não consideremos isso piegas demais para iniciar uma história). Catherine não queria mais ser quem era. Olhava-se no espelho. Quem se importaria com a sua ausência? Tudo parecia estar perdido. Era uma moça comum. Não sei explicar o que significa "ser comum". Ela também não. Na verdade, Catherine não sabe que publicarei a sua história. Por isso, não posso entrar em detalhes. Deduziremos. Algo demasiadamente arriscado.

Catherine nada fizera de significativo na vida. Exceto quando aprendera a fritar ovos. Habilidade desprezível. Pensou. Ouviu dizer que "nenhuma mulher se sente suficientemente amada". Catherine era estranha. Achava-se misteriosa. Mas era uma obviedade sem fim. Todos os seus passos eram previsíveis. Gostava de ler biografias. Achava-se inteligente por isso. Pobre criatura! Não gostava de andar descalça. Mas esse detalhe não importa. Ele nada contribui para o desenrolar desta história. Esqueçamos esse pedaço!

Catherine não era uma moça bonita. Falava apenas português. Nascera numa cidadezinha qualquer. Esquecida pela geografia. E desprezada pela literatura. Na infância... Bem, desculpem-me, mas não me sinto no direito de falar sobre a sua infância. Sinto-me tentada, é verdade. Porém, um cisco de prudência tomou conta de mim. Falemos, então, sobre sua sexualidade. É menos comprometedor. Catherine não era lésbica, ao que tudo indica. Tivera poucos namorados. É verdade. (A propósito, o que significa ter poucos namorados? Como mensuramos isso? E que importância isso tem?) Vamos reconstruir: Catherine tivera quatro namorados. Não sabemos se isso é pouco ou muito. E se é pouco, é pouco em comparação a quê?

A morte não é tão horrível assim. Há algo de sublime nela. Viver é que pode ser a maior de todas as torturas. E de todas as tentações. Eu, particularmente, discordo disso. Catherine não. Certa vez, a jovem viu-se perdidamente apaixonada. Viveu intensamente essa paixão. Tempos depois, fora abandonada. Trocada pela leveza de uma noite. De um dia ensolarado. De uma vontade enorme de viver. Foi quando Catherine percebeu que nada estava sob o seu controle. Ela constatou que amar não é algo nobre coisíssima nenhuma. Eu entendo. Catherine fora movida pela decepção. Talvez não devêssemos levá-la a sério.

Catherine era órfã. De pai e de mãe. Mas não pensemos que isso é a sua grande tragédia. Não é. Por motivos de força maior (como diria um jurista), ela aprendera a se virar bem. Todos a consideravam forte, corajosa. E ela tinha raiva dessa reputação. Pra ser sincera, Catherine era uma verdadeira idiota. Reclamava de barriga cheia, como diria a minha avó. Penso que cometi um gravíssimo erro. Catherine era, sim, uma moça bonita. Ora. Deve ser péssimo ter a sua história contada por pessoas insensíveis e mesquinhas. Brutas e invejosas.

(Não adianta você dizer que esta história é desinteressante. Afinal de contas, avisei que Catherine nada fizera de significativo na vida) Para acabar logo com isso, preciso dizer que Catherine não tinha irmãos. Não tinha amigos. E não tinha mais namorado. Há tempos, não cortava os cabelos. Não ia mais ao salão. Não freqüentava mais livrarias. E não acessava mais os seus e-mails. Além disso, ela odiava alface. Engordou por conta disso. Ficou entregue.

Catherine se cansou da vida. Estava ciente de que as pessoas são sempre ridículas, egoístas, mentirosas e convenientes. Tentei convencê-la de que as pessoas são, de fato, assim. Mas que também são outras coisas melhores. Tentei fazê-la desistir do suicídio.

Não consegui.

7 comentários

Comentário de: Edison [Visitante] Email
EdisonCara Catherine...
Como diria meu avô: "É melhor morrer em pé que viver de joelhos". Morrer foi a melhor coisa que fez na sua vida. A liberdade de viver só é superada pelo liberdade de morrer. Viva a liberdade! Abaixo a hipocrisia! Morrer é fazer a vida valer a pena!

Não sei, Edison. Não sei. Talvez existam outros caminhos. Outras possibilidades de atingir o nirvana. beijos, Aline
17/09/2007 @ 14:35
Comentário de: Wimys [Visitante] Email
WimysOi, Aline... Tenho visitado o seu blog regularmente. Obr tb pelas visitas. Ah! antes de me cobrar, na próxima visita deixarei um comentário. Adoro seus posts.
Abraços!!!!

Wimys, estou feliz que esteja assíduo neste meu espaço. Obrigada pela companhia! bjs, Aline
17/09/2007 @ 23:32
Comentário de: Tamara [Visitante] Email
TamaraCatherine é tão verdade quanto sua própria fantasia de viver. Como ela morreu mesmo? Penso na Catherine enforcada, suspensa entre o chão e o céu.

Um beijo Aline :*

Tamara, não sei como ela morreu. Isso não é importante. A propósito, nem sei se ela morreu. Tenho minhas dúvidas. Grata pela visita! beijão, Aline
20/09/2007 @ 14:00
Comentário de: Digo [Visitante] Email
DigoDeixemos Cat no seu estado pré-suicida indefinido então.

Cat? Sente-se íntimo dela? É, vamos deixá-la descansar. um xero, Nina

20/09/2007 @ 17:05
Comentário de: Helen [Visitante] Email
HelenNão sei pq, mas Catherine me lembra Macabéa, rs. bjks

Helen, eu, particularmente, não consigo ver semelhanças. Talvez porque o meu olhar esteja comprometido. De repente, elas podem ter pontos em comum, claro. Por que não, né? beijos, Aline
20/09/2007 @ 18:13
Comentário de: Rebeca [Visitante] Email
RebecaO suicídio é sempre a saída mais rápida, porém não é mais fácil.
O suicídio é sempre a saída mais prática, porém não a mais acertada.
O suicídio é atraente por parecer ser uma saída, mas o suicídio não é uma saída.
Eu acredito em vida após a morte.
Beijos!

Acho que tb acredito!!! beijão, Aline
29/09/2007 @ 19:03
Comentário de: Raiane [Visitante]
RaianeTodos nós temos um pouco dessa menina ai..visite meu blog..estou a beira de um fim assim..
Fatos contados em casos cada vez mais rotineiros e reais..
10/02/2009 @ 21:56

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