PRECONCEITO EMOCIONAL – Parte I

02/05/2007 - Categorias: Da série..., Sociedade  

As emoções da criança não tardam a esbarrar em proibições. São imoladas ao princípio da autoridade e à moral. Instaura-se um processo implacável de recalcamento, de modo que, em vez de se expandir, o potencial emocional se atrofia. A criança descobre que existem emoções permitidas e outras que não o são: “Menino não chora”, “Menina boazinha não tem acessos de raiva”, “É feio amarrar a cara”, “É feio sentir ciúme”, “A gente não grita nem mesmo quando está contente...” Cada família alimenta seus próprios preconceitos nessa matéria, desenvolvendo uma verdadeira microcultura emocional. Numa, aprecia-se a alegria ruidosa; noutra, não se tolera qualquer manifestação de cólera; noutra ainda, alguém se apressa a dar uma guloseima à criança entristecida, assim fabricando um futuro bulímico que, quando estiver deprimido, não terá outro reflexo senão abrir a geladeira. (Michel Lacroix, filósofo, no livro “O culto da emoção”)

O trecho acima não precisa de elucidações, muito menos de contexto. Creio que ele se explica sozinho. Porém, insistente que sou, gostaria de fazer minhas considerações: (1) embora o autor seja francês (Brasil e França apresentam realidades distintas), suas observações podem ser compreendidas de modo universal; (2) no Brasil, sobretudo em cidades menores, onde é bem visível o culto ao tradicional, aos costumes dos “antigos”, notamos o quanto essa repressão emocional é comum: as crianças crescem alimentando uma visão míope do sexo, por exemplo; (3) sempre me perguntei de onde veio a idéia de que “menino não chora”, a idéia de que expressar emoção é, de certa forma, vergonhoso; (4) nas cidades grandes, o inverso também acontece: vive-se a ilusão de que tudo é permitido, de que tudo é natural – o verdadeiro culto “à mente aberta”; (5) é uma pena que sejamos tão facilmente enganados.

“Assim, em busca de sensações fortes, o indivíduo moderno emociona-se muito. Mas, será que sabe sentir? Cada vez mais agitado e cada vez menos sensível, por que terá ele abandonado as emoções serenas? Eis o cúmulo do paradoxo: no momento em que triunfa e se torna objeto de um verdadeiro culto, será que a emoção tomou irremediavelmente o caminho do delírio?”, questiona Lacroix.

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LACROIX, Michel. O culto da emoção. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2006. p. 63.
Nota sobre o autor: Michel Lacroix é filósofo e leciona na Universidade de Évry Val-d’Essonne, na França. No âmbito de suas pesquisas sobre os costumes e as mentalidades contemporâneas, publicou De la Politesse, L’Idéologie du New Age e Le Développement Personnel.

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GOSTO DA IRREVERÊNCIA DE MACHADO DE ASSIS

Dedico este post a minha irmã Cecília, que é fã de carteirinha de Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1889) são responsáveis pela admiração que passei a ter pelo romancista* carioca. A sua maneira irreverente de escrever e a de "cutucar" o leitor são, para mim, sensacionais. Seu sarcasmo, perfeito!

PEQUENAS CONSIDERAÇÕES

Memórias Póstumas... - Uma vez que a obra é narrada por um "defunto autor", Brás Cubas critica livremente as hipocrisias das pessoas com quem ele conviveu. E eu gosto dessa liberdade e da perspicácia de Machado de Assis neste livro.

Dom Casmurro - É narrado em primeira pessoa pelo protagonista masculino Bentinho (Dom Casmurro), que está desiludido, velho e solitário. Ele conta sua história ao lado de Capitu. Enquanto é feita a pergunta "Capitu traiu ou não traiu Bentinho?", vou pensando na criação das personagens... E visualizando cada uma delas... Capitu, uma menina dissimulada. Bentinho, um desiludido. As interrupções que o autor faz para falar com o leitor são irônicas, mas bem humoradas...

*escritor, jornalista, poeta, cronista, contista, dramaturgo, novelista, crítico e ensaísta.

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GOSTO DESTA FRASE

10/10/2005 - Categorias: Da série..., Citações  

(...) o senhor elogia minha brandura e sabedoria, talvez não com toda a razão. Se eu não soubesse que sujeito estranho o colega, de quem o senhor escreve, é, no geral, eu censuraria em muito o comportamento dele na questão do congresso. Mas digo para mim, como para o senhor, o homem não pode ser mudado e tem de ser engolido assim como é." (p. 129)

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Trecho de uma das cartas escritas por Freud ao pastor suiço Oskar Pfister, publicado no livro Cartas entre Freud e Pfister (1909-1939) - um diálogo entre a psicanálise e a fé cristã (tradução de Karin K. Wondraceik e Ditmar Jung, da Editora Ultimato)

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