É PROIBIDO PENSAR
Num daqueles brilhantes aforismos que iluminam toda uma paisagem, como um relâmpago, Nietzsche proclamou: "Errar é covardia!" Isto é, se deixarmos de distinguir a verdade não é por falta de cultura, de diplomas acadêmicos, e sim por não termos bastante coragem. (Rollo May, O homem à procura de si mesmo, Editora Vozes, 1982, p. 205)
Procuro alguém pra resolver meu problema
Pois não consigo me encaixar nesse esquema
São sempre variações do mesmo tema
Meras repetições
A extravagância vem de todos os lados
E faz chover profetas apaixonados
Morrendo em pé rompendo a fé dos cansados
Que ouvem suas canções
Estar de bem com vida é muito mais que renascer
Deus já me deu sua palavra
E é por ela que ainda guio o meu viver
Reconstruindo o que Jesus derrubou
Recosturando o véu que a cruz já rasgou
Ressuscitando a lei pisando na graça
Negociando com Deus
No show da fé milagre é tão natural
Que até pregar com a mesma voz é normal
Nesse evangeliquês universal
Se apossando dos céus
Estão distantes do trono, caçadores de Deus
Ao som de um shofar
E mais um ídolo importado dita as regras
Para nos escravizar
É proibido pensar (5x)
Procuro alguém pra resolver meu problema
Pois não consigo me encaixar nesse esquema
São sempre variações do mesmo tema
Meras repetições
Meras repetições
É proibido pensar
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Letra e música: João Alexandre
Violões e voz: João Alexandre
Cajón, pandeiro, caxixi, triângulo e ganzá: Osmário Marinho
TIRANIA DAS IDÉIAS
"Existe uma espécie de tirania das idéias, aquela que toma conta do senso comum, fazendo com que o estranho pareça natural, o a posteriori pareça a priori, o incomum pareça comum. Idéias irrompem em um determinado momento histórico, sendo novas naquele então, e, depois, com o tempo, se sedimentam, em um processo lento que as faz quase estáticas, tornando-as, assim, parte, quase inevitável, do modo mediante o qual pensamos. Em vez de nos interrogarmos sobre o modo de aparecimento e funcionamento das idéias graças às quais pensamos e conhecemos, terminamos por nos acomodar a elas, como se elas não precisassem mais de questionamentos, como se aquilo que se encontra a nosso alcance imediato fosse produto de um processo natural. Idéias nos escravizam sem que percebamos as raízes da escravidão." (Denis Rosenfield, filósofo e cientista político)
Até mesmo por conta da minha formação religiosa, comparar certas afirmações com o universo "evangélico-cristão", para mim, é inevitável. Na minha avaliação, não existe ambiente mais propício à alienação do que o ambiente religioso. O sujeito é treinado para não questionar, para não desconfiar das "idéias" de seus "mestres espirituais", sob o argumento de que tudo está lá: está escrito na Bíblia. Assim como, em nome da justiça social, muitos movimentos ditos sociais cometem absurdos, em nome de Deus, muitos movimentos ditos cristãos retiram do homem a possibilidade de acreditar num Deus muito mais amoroso do que vingativo e de um Deus muito mais humano do que distante de nós.
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ROSENFIELD, Denis Lerrer. A democracia ameaçada - O MST, o teológico-político e a liberdade. Topbooks: Rio de Janeiro, 2006. p. 30.
SECTARISMO: NÃO CABE A VOCÊ SEPARAR O JOIO DO TRIGO
As igrejas e os partidos políticos tendem a dividir a humanidade em dois blocos: seus adeptos são o trigo; seus opositores são o joio. Porém, Jesus não joga o jogo do sectarismo. Sua mensagem não exclui ninguém e traz ao primeiro plano o homem com suas contradições e com sua liberdade. A lição que precisamos aprender é que o joio, que projetamos fora, encontra-se também em nosso interior. E só a maturidade nos permite diferenciá-lo do trigo. Admitir que temos um lado mesquinho poderia nos ajudar na busca dessa sabedoria madura. Negar a existência dessa pequenez pode produzir efeitos desastrosos. Pior: aquilo que expulsamos com orgulho pela porta da frente tende a voltar sorrateiramente pela porta dos fundos. Não espanta que o mundo esteja cheio de padres pedófilos, pastores ladrões, mulás fanáticos etc. A repetição mecânica dos textos sagrados não confere santidade a ninguém. (Revista Claudia, nº 12, ano 45, dezembro de 2006, reportagem As Palavras de Jesus Cristo à Luz do Século 21)
O fanatismo religioso - assim como a fome nos países pobres - mata; a intolerância - assim como as doenças infecto-contagiosas - precisa ser combatida. E o combate, no caso da intolerância (seja ela de que nível for), pode começar no coração de cada um, na consciência de que não temos nenhum direito sobre o caminho que o outro decidiu seguir. Penso que nada há de mais ridículo do que a ilusão de que nossas escolhas são melhores que as escolhas do nosso próximo. Nada há de mais ridículo do que a "falsa certeza" de que eu sou o trigo, e você é o joio.