Contos »

[ 2 de Abril de 2009 | 6 feedbacks » | 1770 visualizações]

por Michel Oliveira*

Acordou sem gosto na boca. Mais uma vez teria de procurar algo que não sabia. Levantou despenteada. Cabelos loiros, pele clara. Olhos azuis perdidos na imensidão de seu vazio.

Quis cantar, mas não lembrava nenhuma canção. Seu toca-discos não funciona mais. Nunca foi adepta da modernidade, não aderiu aos CDs.

Suas pernas estavam peludas, mas que importa? Ninguém a acariciaria. Não lembrava seu nome, afinal não havia quem o chamasse.

Mas naquela manhã acordou diferente. Não havia gosto em sua boca. Lembrou-se então de que sentia sede. Desceu as escadas. Nos pés, as meias coloridas com que dormia todas as noites. Viu no aparador a fotografia de um antigo namorado, mas não conseguia lembrar-se da voz dele.

Lembrava-se de poucas coisas. Todas elas sem interesse para os outros.

Lembrou-se novamente de que tinha sede. Entrou lentamente pela cozinha e pegou um grande copo listrado que ganhou da avó. Bebeu lentamente com o ar solene que lhe era habitual.

Não sabia, mas havia matado a sede.

Por um instante cantarolou uma canção, mas não lembrava a letra. Teve fome. Havia dois dias que não comia. Abriu a geladeira, estava vazia. No armário encontrou torradas, estavam amolecidas, mas não importava. Comeu-as sem prazer.

Não sabia, mas havia matado a fome.

Ouviu um barulho, não sabia de onde vinha. Passou pela sala com as meias coloridas. Abriu todas as gavetas, o velho armário, mas nada encontrou. Tudo cheirava a mofo, mas não se sentia sufocada.

Abriu a pequena porta que fica embaixo da escada. Estava escuro, mas não teve medo. Destampou um velho caixote de madeira e encontrou o que estava fazendo o barulho. Uma velha caixa de música enferrujada que tocava sem ninguém dar corda. Não era o som agradável de antigamente, mas tocava.

Não sabia, mas havia matado a curiosidade.

Sentiu repentinamente falta de sexo. Ligou para um garoto de programa qualquer, que entrou sem lhe olhar nos olhos. Fez o que havia de ser feito, tomou banho e foi embora. Ela nada sentiu, apenas acalmou seu desejo animal.

Não sabia, mas havia matado o desejo.

Chovia lá fora. Uma chuva fria e dissimulada. Teve frio. Vestiu um velho casaco de lã, cheirava a naftalina, mas não espirrou.

Não sabia, mas havia matado o frio.

Queria dormir, mas o sono não vinha. Deitou-se. Rolou para todos os lados: de bruços, de lado, cruzou as pernas, os braços, os dedos, e nada. O sono não vinha. Lembrou-se então de velhos comprimidos que estavam na bolsa. Tomou-os sem fé que funcionariam. Nunca acreditou na ciência. Duas horas depois dormiu.

Não sabia, mas havia se matado...

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* Michel Oliveira, meu amigo, escreve no blog "Drogado Cultural".

Especial »

[ 1 de Janeiro de 2008 | 5 feedbacks » | 1291 visualizações]

por Aline Menezes

CAPÍTULO I

Algumas pessoas são como as obras de Tchaycowski, muito barulho, pratos, metais e bumbos, mas é só na superfície. Você é como Chopin e Debussy, uma aparência melódica, mas no fundo uma tensão insuportável que nunca se disssipa no movimento, é quase um rasgar do espírito. (Peter Lewis diz para Catherine)

CAPÍTULO II

... e não falemos de angústia. Dessa dor que nos dilacera, que nos torna culpados, como se pudéssemos controlar o mundo e tudo que nele há. Somos humanos por excelência, porque temos o desejo que nos purifica a alma: queremos viver. Sabemos ser inconseqüentes e intransigentes. Sentimos saudades – eis nossa revolta contra o tempo, contra o espaço e contra o mundo. Discutimos nossas misérias cotidianas e históricas, pessoais e impessoais, buscamos ser honestos. Cinicamente honestos. (Catherine diz para Peter Lewis)

CAPÍTULO III

Compreendemos nossa condição fragmentária, imperfeita, implacavelmente imperfeita. E não nos mobilizamos por conta dessa imperfeição. Foi mais forte que nós. Mais intenso. Tenso. Desejos incontroláveis de transgredir. Não a transgressão que nos faz eternamente machucados, culpados, enganados. Mas aquela que nos deixa em paz, porque fomos capazes de dizer um para o outro o quanto somos especiais. E, curiosamente, não somos mais uma capela, mas uma verdadeira catedral. (Peter Lewis escreve para Catherine)

CAPÍTULO VI

O que há em nós é sagrado e profano. É puro e impuro. Parece vida, mas parece morte. Os dias nos consomem o espírito; roubam-nos o silêncio: a mudez; deixam-nos eufóricos, ansiosos, armados e desarmados. E também conspiram contra nós. É nisto que acreditamos. Mudamos o rumo de nossa história. Sentimo-nos seguros e inseguros. Livres e aprisionados. Um paradoxo sem fim. Mas somos a nossa própria e imensa vontade de viver. (Catherine escreve para Peter Lewis)

THE END

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Nota: Esta imitação de conto é apenas minha forma de falar das lembranças que ficam em minha memória. Recordações daqueles anjos que me motivaram e me inspiraram para rascunhar certas linhas. E é assim que me despeço de 2007: com pequenos e intensos diálogos de quem também já soube o que é amar!

Citações »

[ 2 de Dezembro de 2007 | 4 feedbacks » | 5078 visualizações]

O beijo erótico, que envolve os lábios e a língua, é uma parte do jogo amoroso. Quando o casal se beija com a língua (no chamado "beijo da alma" ou "beijo francês"), a língua reflete e liga diretamente seus corações, enquanto os lábios dão e recebem afeto mútuo. Além disso, os meridianos Vaso Governador e Vaso Concepção de cada parceiro estão ligados aos lábios e à língua, fazendo, como já dissemos, um circuito completo de fluxo de energia quando o casal se beija. (p. 99)

E ouço os gritos silenciosos nas ruas por onde passei. Acompanhada daquele encantamento que só os apaixonados sabem demonstrar. Impulsionada pela certeza de que este é o momento dos corpos entrelaçados. Das posições proibidas. Da arte secreta da Câmara de Jade. De posturas místicas. Ele deitado de costas. Move-se. Ela.

Corpo. Carne. Volúpia. Dos olhos, nascem belezas. De encontros, nascem os lábios. Os ruídos, os pequenos suspiros. O relaxar dos músculos. Batimentos cardíacos. Delírios saudáveis dos instantes. Instintos maiores. Em carícias e beijos. Suaves olhares. Cheiros. Sabores. Perfeita harmonia. Compatíveis movimentos...

... para cima e para baixo.

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CHIA, Mantak & WEI, W. U. Reflexologia sexual: o tao do amor e do sexo. São Paulo: Cultrix, 2002.