Homo sapiens »

[ 13 de Julho de 2009 | 9 feedbacks » | 1735 visualizações]

E, quando duvido, não me culpo. Não sofro com dúvidas, pois o que me move em fé não deixa que qualquer que seja a dúvida me moleste como tal. (Caio Fábio)

Certa vez, alguém delicadamente me disse: "Aline, gosto muito de você, mas você tem muitas certezas". Essa afirmação veio logo após conversarmos sobre diversos assuntos. E, claro, isso me foi dito com "ares de certeza", o que só indica o quanto somos contraditórios e pouco lúcidos. Minhas imperfeições, minhas dúvidas, meus excessos, minhas falhas, minhas contradições... nada disso ocupa lugar essencial em minha vida. Talvez, por isso, o que em mim me move contra o fluxo desta existência - tão histérica, possessiva, incerta - seja, para o outro, pouco importante ou incômodo.

Como não me contive diante da crítica disfarçada de "mera observação", insisti em continuar por e-mails. Ao que ele ingenuamente disse: "gosto mais de minhas dúvidas do que de minhas certezas". Inquieta e provocativa, lá fui eu: "lamento que suas certezas sejam tão vulneráveis a ponto de lhe fazerem acreditar que suas dúvidas são mais seguras". Penso que eu e o meu amigo estávamos discutindo sob perspectivas e motivações distintas. Penso também que ele não sabe que, para mim, é tolice a rigidez do pensamento, tanto quanto a ilusão de que ter dúvidas é mais "sofisticado".

Muitos confundem pensamentos rígidos (ideias fixas) com certezas da alma, aquelas estabelecidas pela nossa experiência e consciência particulares. Muitos confundem o "ter certezas" com a falta de capacidade para se permitir a mudança de pensamentos, dar espaços para a diversidade da vida e das possibilidades de viver. Muitos confundem pessoas dispostas a viverem de acordo com o que acreditam com gente metida a perfeitinha...

... esta é a vida: quero tê-la em favor de mim.

Foreign literature »

[ 11 de Setembro de 2008 | 5 feedbacks » | 2758 visualizações]

É raro o ser humano mostrar-se totalmente sincero ou totalmente hipócrita. A disposição muda, seus motivos são confusos e ele em geral se engana bastante em relação a quais sejam seus motivos... (C.S.Lewis)

O escritor irlandês C.S.Lewis (1898-1963), durante os últimos treze anos de sua vida, trocou correspondências com uma americana. Lewis e a senhora dos Estados Unidos nunca se encontraram pessoalmente. Mesmo fragilizado pelos seus problemas de saúde (sem contar com o período em que sofreu a perda de sua mulher Joy), ele sempre demonstrou em suas cartas a preocupação com o outro. A honestidade de quem sabe de suas imperfeições e, nem por isso, esconde-se por trás de suas virtudes.

No início, pensei que Cartas a uma senhora americana me daria apenas o prazer de ler as cartas escritas por um bilhante escritor, aquele ser inatingível e inacessível aos olhos dos fãs. Até o momento em que enxerguei a beleza do homem Clive Staples Lewis (Jack, se preferir). Aquela beleza sobre a qual escrevo de vez em quando. E que admiro sinceramente. Beleza que não se encontra com facilidade, que não está à venda, que quase nunca encontramos no ambiente de trabalho, no meio acadêmico, nas ruas da cidade, na esquina, nem nas lojas Tiffany's.

A simplicidade de quem revela dor: "... Não posso descrever a aparente irrealidade de minha vida desde então [a morte de Joy]. (...) Tentarei escrever de novo quando tiver mais controle sobre mim mesmo". A certeza de que deveríamos, sim, viver como os lírios dos campos. Deveríamos, sim, compreender o quanto somos miseráveis. E que, se há alguma beleza em nós, não é fruto da seleção natural. Nem muito menos dos nossos antepassados. Se há alguma beleza em nós, sejamos gratos, afinal de contas...

... "um homem com as mãos cheias de pacotes não pode receber um presente".

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LEWIS, C.S. Cartas a uma senhora americana. Tradução Lenita Esteves. São Paulo: Editora Vida, 2006, pp. 91, 112 e 120.

Minhas reflexões »

[ 29 de Agosto de 2008 | 4 feedbacks » | 1619 visualizações]

(...) Palavras salvam, mas também nos deixam vulneráveis. Tudo o que falamos entra pelos ouvidos alheios e é retido numa espécie de caixa-forte que será reaberta na hora em que considerarem por bem nos culpar de alguma coisa. Lá estarão, guardadas como prova de delito, nossas inúmeras contradições, as ofensas ditas no calor de uma briga, as promessas de amor que não se cumpriram, os comentários ferinos que fizemos, as inconfidências, os vacilos, o que gaguejamos covardemente e o que confiamos aos outros na esperança de não sermos traídos (e tudo o que dissemos traindo a nós mesmos), os pensamentos que já não pensamos mais, os ideais que não se sustentaram, nossos palavrões e nossas medíocres palavrinhas, poucas delas alcançando a comunicação desejada e quase nenhuma chegando perto do que somos de verdade. (Martha Medeiros)

Até nos esforçamos para falar coisas mais positivas sobre a "criatura humana". Às vezes, alguns leitores antipatizam o fato de "sermos" incrédulos quanto à "bondade do homem". De fato, é importante dizermos que há pessoas "sublimadas", gente de alma linda... Mas não gostamos da enganação de que esses seres são "anjos" ou "quase perfeitos"...

E, para aqueles que persistem em acreditar nos anjos terrestres, sugiro convivência freqüente com esses seres. De preferência, deixem-os à vontade. Somente assim eles poderão demonstrar o quanto são "gente". Assim: iguaizinhos a nós! Sabem aqueles sentimentozinhos que acompanham as almas viventes, mas que só dominam os de maior displicência? Então, aquela arrogância em forma de sorriso, aquela inveja camuflada, aquela raiva, aquele ciúme, aquela palidez dos olhos falsos, aquelas mentiras ridículas. Aqueles lábios traiçoeiros e aquela língua ferina.

... pensando bem, sejamos mais simpáticos com o nosso "caro leitor": há muitas auréolas e círculos luminosos por aí!

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MEDEIROS, Martha. O direito de calar. In: Coisas da vida. 7ª reimpressão. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 222.