"Time is just a melody... Wanna break on down... But i can't stop now."
Preservar-se: defender-se, proteger-se, resguardar-se. Livrar-se de algum mal; manter-se livre de corrupção, perigo ou dano; conservar-se.
"Um desenho humorístico publicado há alguns anos mostrava um homem e uma mulher fazendo amor na posição dos cães. Enquanto se desenrola o ato sexual, o homem pergunta a sua parceira: "Que tal darmos um passeio no domingo que vem?" "Ah, não, nós não nos amamos o bastante para isso", responde a mulher.
Esse diálogo ilustra um certo desvirtuamento da vida amorosa que se seguiu à revolução sexual dos anos 1960 e 1970. A expressão do sentimento, a admiração pelo ser amado, a sublimação da relação com o outro e o colóquio amoroso foram freqüentemente ofuscados pela busca de sensações. Para muitos indivíduos, o ritual do galanteio e da conversa sedutora deu lugar a uma libertinagem desprovida de poesia, que culmina no coquetel sadomasoquista/droga/troca de parceiros. O culto do orgasmo substituiu o mapa do País da Ternura*." (LACROIX, 2006, pp. 153 e 154)
A vida está além dos deslumbramentos. Reconhecer-se enquanto ser implica produzir no outro a possibilidade de ser indivíduo. Nesta terra de gigantes, olhar o outro deixou de ser um esforço possível. Mas há aqueles que sobrevivem ao abandono. Não porque são os mais fortes, mas porque aprenderam que...
... o tempo é apenas uma melodia.
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* Em Clélie, romance escrito em 1654-1660 em colaboração com Georges de Scudéry, sua irmã, Madeleine Scudéry, desenhou a célebre "carte du Tendre", mapeando o país ou o reino da ternura (le Royaume du Tendre).
LACROIX, Michel. O culto da emoção. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2006.
"Todavia, não desejava concluir de todas estas cousas que o mundo tivesse sido criado pelo modo que propunha, pois é bem mais verossímil que, desde o começo, Deus o fez como devia ser. Mas é certo - e é opinião comumente aceita pelos teólogos - que a ação na qual ele agora o conserva é a mesma que aquela pela qual o criou. De modo que, se bem que não lhe tivesse dado, no princípio, outra forma que a do caos, embora estabelecesse as leis da natureza, ele prestou a esta - é de se crer - seu concurso, para que ela agisse como é do seu costume, sem prejudicar o milagre da criação; e, só por isso, todas as cousas que são puramente materiais teriam podido, com o tempo, tornar-se tais como as vemos no presente. E sua natureza é bem mais fácil de compreender quando as vemos, deste modo, nascer pouco a pouco, do que quando as consideramos completamente feitas." (René Descartes, pp. 106, 107)
Nascer pouco a pouco. Criar a revolução dos bichos. Testar as hipóteses das três leis de Newton. Seja lá o que for aquilo que nos move... isso é o que, em parte, somos. Será que somos nossas motivações? Às vezes, nada parece ser tão valioso do que amar a si mesmo. Descobrir-se a melhor companhia de sua própria existência. Não, isso não é agoísmo. É preservação. Preservar-se da morte em vida. Do suicídio coletivo. Ninguém deverá antecipar a sua hora da estrela. E quem são os cavaleiros que morreram na fogueira?
Às vezes, a transitoriedade da vida emerge como a única possibilidade de libertação. Mas, sobre isso, ninguém precisa concordar conosco. Ninguém precisa, nem mesmo, entender as nossas linhas. O nosso raciocínio. Deixemos de lado "os espíritos fracos e vacilantes que se deixam levar a praticar como boas as coisas que, a seguir, julgam más" (p. 75). "E só isso me parecia bastante para me impedir de desejar no futuro o que eu não pudesse adquirir e, desse modo, viver contente" (p. 75).
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DESCARTES, René. Discurso do Método. Tradução de João Cruz Costa. Rio de Janeiro: Edições de ouro.
Por Caio Fábio
Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos; sabe, porém, que de todas estas coisas Deus te pedirá contas. Afasta, pois, do teu coração o desgosto e remove da tua carne a dor, porque a juventude e a primavera da vida são vaidade. Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer! (Livro de Eclesiastes, 11:9,10 e 12:1)
Aqui há quase um paradoxo. O jovem deve se recrear, andar por caminhos que alegram o coração e agradam os olhos. Ele, porém, deve saber que os atos da juventude podem deixar marcas e seqüelas. Por isso, a recomendação é no sentido de que se experimente a vida com bom-senso, buscando sempre os "bons prazeres". Isto porque no desejo de atender às demandas do coração nos dias da mocidade, e na intenção de andar por caminhos que satisfazem aos olhos, pode-se entrar no caminho da dor e do desgosto. Por isso, os "bons prazeres" precisarem ser vividos sem "os maus prazeres". Sim, há bons prazeres e maus prazeres nesta existência.
A recomendação, portanto, é para que se remova do coração o desgosto, e da carne a dor. Do contrário, a estação que é primavera da existência pode ser a fomentadora das dores existenciais de toda a vida. Ora, na minha maneira de ver, a "igreja" decidiu que não há bons prazeres e nem maus prazeres, visto que, para ela, o prazer em si é mau. E é em razão disto que se instalam na alma dos crentes os ?vazios? nos quais entram os maus prazeres. O que estou dizendo? Sim, o que digo é que a tentativa de viver sem prazer cria o espaço para os maus prazeres, visto que a repressão do bom prazer gera as pulsões interiores que explodirão como maus prazeres. O que precisamos saber é que é assim que a alma funciona. Se você faz SUPRESSÃO e sublima um desejo ou sentimento, não sendo uma decisão do equilíbrio, isto mesmo voltará como tormento. E se alguém faz REPRESSÃO de sentimentos e desejos, eles voltarão como compulsões, e, dependendo do nível da repressão, podem aparecer como taras, fetiches e desejos incontroláveis.
(...) Assim, aproveite o vigor e a vitalidade da alma e suas constelações da poesia.
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Fonte: http://www.caiofabio.com, especificamente numa carta intitulada "Consertos para a juventude".