CARTAS A UMA SENHORA AMERICANA

11/09/2008 - Categorias: Citações, Literatura Estrangeira  

É raro o ser humano mostrar-se totalmente sincero ou totalmente hipócrita. A disposição muda, seus motivos são confusos e ele em geral se engana bastante em relação a quais sejam seus motivos... (C.S.Lewis)

O escritor irlandês C.S.Lewis (1898-1963), durante os últimos treze anos de sua vida, trocou correspondências com uma americana. Lewis e a senhora dos Estados Unidos nunca se encontraram pessoalmente. Mesmo fragilizado pelos seus problemas de saúde (sem contar com o período em que sofreu a perda de sua mulher Joy), ele sempre demonstrou em suas cartas a preocupação com o outro. A honestidade de quem sabe de suas imperfeições e, nem por isso, esconde-se por trás de suas virtudes.

No início, pensei que Cartas a uma senhora americana me daria apenas o prazer de ler as cartas escritas por um bilhante escritor, aquele ser inatingível e inacessível aos olhos dos fãs. Até o momento em que enxerguei a beleza do homem Clive Staples Lewis (Jack, para os íntimos). Aquela beleza sobre a qual escrevo de vez em quando. E que admiro sinceramente. Beleza que não se encontra com facilidade, que não está à venda, que quase nunca encontramos no ambiente de trabalho, no meio acadêmico, nas ruas da cidade, na esquina, nem nas lojas Tiffany's.

A simplicidade de quem revela dor: "... Não posso descrever a aparente irrealidade de minha vida desde então [a morte de Joy]. (...) Tentarei escrever de novo quando tiver mais controle sobre mim mesmo". A certeza de que deveríamos, sim, viver como os lírios dos campos. Deveríamos, sim, compreender o quanto somos miseráveis. E que, se há alguma beleza em nós, não é fruto da seleção natural. Nem muito menos dos nossos antepassados. Se há alguma beleza em nós, sejamos gratos, afinal de contas...

... "um homem com as mãos cheias de pacotes não pode receber um presente".

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LEWIS, C.S. Cartas a uma senhora americana. Tradução Lenita Esteves. São Paulo: Editora Vida, 2006, pp. 91, 112 e 120.

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O DIREITO DE CALAR

29/08/2008 - Categorias: Citações, Minhas reflexões  

(...) Palavras salvam, mas também nos deixam vulneráveis. Tudo o que falamos entra pelos ouvidos alheios e é retido numa espécie de caixa-forte que será reaberta na hora em que considerarem por bem nos culpar de alguma coisa. Lá estarão, guardadas como prova de delito, nossas inúmeras contradições, as ofensas ditas no calor de uma briga, as promessas de amor que não se cumpriram, os comentários ferinos que fizemos, as inconfidências, os vacilos, o que gaguejamos covardemente e o que confiamos aos outros na esperança de não sermos traídos (e tudo o que dissemos traindo a nós mesmos), os pensamentos que já não pensamos mais, os ideais que não se sustentaram, nossos palavrões e nossas medíocres palavrinhas, poucas delas alcançando a comunicação desejada e quase nenhuma chegando perto do que somos de verdade. (Martha Medeiros)

Até nos esforçamos para falar coisas mais positivas sobre a "criatura humana". Às vezes, alguns leitores antipatizam o fato de "sermos" incrédulos quanto à "bondade do homem". De fato, é importante dizermos que há pessoas "sublimadas", gente de alma linda... Mas não gostamos da enganação de que esses seres são "anjos" ou "quase perfeitos"...

E, para aqueles que persistem em acreditar nos anjos terrestres, sugiro convivência freqüente com esses seres. De preferência, deixem-os à vontade. Somente assim eles poderão demonstrar o quanto são "gente". Assim: iguaizinhos a nós! Sabem aqueles sentimentozinhos que acompanham as almas viventes, mas que só dominam os de maior displicência? Então, aquela arrogância em forma de sorriso, aquela inveja camuflada, aquela raiva, aquele ciúme, aquela palidez dos olhos falsos, aquelas mentiras ridículas. Aqueles lábios traiçoeiros e aquela língua ferina.

... pensando bem, sejamos mais simpáticos com o nosso "caro leitor": há muitas auréolas e círculos luminosos por aí!

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MEDEIROS, Martha. O direito de calar. In: Coisas da vida. 7ª reimpressão. Porto Alegre: L&PM, 2008, p. 222.

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SUPERFÍCIE

05/08/2008 - Categorias: Citações, Minhas reflexões  

(...) Assim vai o mundo. Assim se fazem algumas reputações más, e, o que parece absurdo, algumas boas. Com efeito, há vidas que só têm prólogo... (O narrador, no conto "A Senhora do Galvão", de Machado de Assis)

... porque a raça humana é complexa (e medíocre). Por mais bonzinhos e otimistas que sejamos, precisamos admitir: não há anjos entre nós. Num esforço milagroso, alguns conseguem sublimar. Criaturas honestas, íntegras, inteligentes e belas, apesar de toda a imperfeição que as cerca. Mas, inevitavelmente "mas", há sempre aquelas pessoinhas songamongas que encontramos por aí. Um olhar insosso. Ou até mesmo falsificado. Um sorriso ignóbil. Ou até mesmo nojento.

E aquela presteza e solicitude tão bonitinhas? Ah, quanto ardil! No fundo, há o coração prepotente e arrogante de sempre. Bom mesmo seria se tais atitudes benevolentes partissem da leveza de espírito... Do esforço para alterar a condição miserável do homem, de si mesmo. Da crença de que meras atitudes complacentes não nos fazem bons. Porque não somos.

Por isso mesmo, vejo beleza no alienista: "(...) Digo que não sinto em mim essa superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificência. A simpatia é que vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade". É... muitos nem sabem se somos sensíveis e perceptivos!

Não sabem porque estão na superfície...

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