[...] podendo evitar a dor, eu a evito. Mas a dor inevitável, sendo vista como o outro lado da bênção do sentir, é apenas uma dor. Dor sem moral e sem filosofia dói muito menos; e até pára de doer.
Sim! É apenas uma dor; e que vai adoçando o coração; a tal ponto que ela se torna um sentir calmo e sereno; afinal, emoções são naturais; e, além disso, sofrer nem sempre dói; e chorar menos ainda; visto que o que dói mesmo é não amar. Esse, sim, é o grande sofrimento e a grande angústia humana! (Caio Fábio)
Recordo-me de muitas cenas de minha infância. Uma, em especial: quando criança, num período em que minha casa estava em reforma, eu costumava ficar deitada sobre os blocos de cerâmica empilhados no quintal, olhando as estrelas. Lembro-me de que essas cenas se repetiam sempre que faltava luz na cidade. Do meu lado, deitava o meu pai, com o seu rádio ligado em não sei qual estação... Às vezes, ouvíamos narração de futebol. Eu não gostava muito, mas, ajudava-o a torcer pelo Fluminense (fazemos coisas bem curiosas quando amamos, é verdade!). Cresci ouvindo meu pai contar histórias. Nos blocos de cerâmica empilhados no quintal, eu ouvia muitas delas.
Meu pai sempre foi (e é) o homem que mais amei (e amo) na vida. Com ele, estabeleci relação de amigos. De pai e filha. Compartilhava sobre os pretendentes a genros no colegial. Dele, ouvia frases do tipo: você tem juízo, minha filha, não preciso me preocupar. Meu pai - com todas as suas fragilidades - é admirável. Sem que ele precisasse falar coisa alguma, eu aprendi com a sua vida a prezar pela honestidade, pela lealdade, aprendi a querer saber das coisas... Não, meu pai não é um cara perfeito. Não mesmo! E é exatamente disto que gosto: da certeza de que o amor que sentimos pelo outro não nos ilude quanto às suas imperfeições.
Logo na epígrafe deste texto, está escrito: podendo evitar a dor, eu a evito. Mas a dor inevitável, sendo vista como o outro lado da bênção do sentir, é apenas uma dor. A propósito, qual relação entre minhas lembranças de infância e a dor inevitável? Naquela época, nunca parava pra pensar sobre as dores inevitáveis. Estar com o meu pai era simplesmente sublime. Porque ele sabia do significado de muitas palavras. E eu adorava palavras! A presença dele me encorajava. Eu não tinha medo do escuro. Portanto, não tinha medo de dores inevitáveis, daquelas que nos deixam na escuridão. Hoje, descubro que, de fato, a grande angústia humana é não amar.
Às vezes, adultos, tudo não passa de uma dor, que vai adoçando o nosso coração...
... até nos tornarmos calmos e serenos novamente, como se estivéssemos deitados sobre os blocos de cerâmica empilhados no quintal de casa, olhando as estrelas.

5 comentários
Também acho que a grande dor é não amar, embora essa é possível sofrer sem sentir ou saber, e é justamente isso o que a torna tão grande, o fato de viver enganado.
Belo e tocante texto!
José, não se sinta culpado, caso venha a gostar de Caio Fábio. Ele é um bom garoto!!!!! (risos também...) Ando com saudades de casa, da minha família que está longe. E estou cheia de boas lembranças da infância. beijo, Aline
Raytchel, Raytchel, minha amiga confidente: embora reais, os blocos de cerâmica também são simbólicos. Carregam tantos e tantos significados do que seja amor. Amar também é isto: torcer para o Fluminense, mesmo sem apreciar muito futebol; estar sobre tijolos, sem muito conforto, mas confortavelmente olhando o céu estrelado. Não sentir medo, mesmo com a falta de luz. Obrigada pela visita e seja sempre bem-vinda. beijos, Alyni
Filipe, quanto tempo!!!! É bom tê-lo aqui novamente. Ah, Renato Russo sabia das coisas... Ele - como poucos - sabia sentir. Dia desses, visitei seu blog, mas ainda estava desatualizado. Passarei lá agora... Dê lembranças aos nossos conterrâneos! um grande abraço, Aline
Preciso dos meus pra levantar abrigo pros dias de chuva...
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