"A atitude convencional em relação à morte é dada pelo nosso próprio colapso quando ela atinge alguém a quem amamos. Mas esta nossa atitude tem poderoso efeito em todas as vidas. A vida se empobrece e perde em interesse quando o prêmio mais alto no jogo de viver, a vida em si mesma, não pode ser arriscado." (Sigmund Freud)
Perfeição: eis a desgraça de todos os homens. O engano da divindade humana. Se para satisfazermos a civilização, é preciso que neguemos nossa natureza humana; se para conquistarmos o outro, é necessário omitir o que temos de menos nobre; se para sermos aceitos socialmente, precisamos fingir que não desejamos a subversão, então devemos admitir, urgentemente, que a vida que temos não é nossa, não é do outro, não é de ninguém. Devemos admitir, urgentemente, que nunca soubemos viver. Ou - o que é pior - não vivemos. Porque já estamos mortos.
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Coleção Pensamento Vivo. Freud. São Paulo: Martin Claret, 2005, p. 92 e 93.
E quando o caminho que escolhemos (ou fomos induzidos a escolher) não é exatamente aquilo que pensávamos ser? E quando as nossas certezas se despedaçam no ar e se transformam em dúvidas traiçoeiras? E quando não sabemos mais como amar? Nem muito menos o que é amor? E quando nos falta paixão? Não aquela que devassa a alma, mas aquela que nos revigora o espírito? E quando o desejo ardente de conhecer o outro é mais santo do que a decisão do celibato? E quando não temos vergonha de transgredir, simplesmente porque não havia outro caminho que nos conduzisse ao céu? E quando o profano se torna santo e o impuro se purifica? E quando as coisas, embora ilegais, são morais? E quando as coisas, embora imorais, são legais? Não sei.
Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos cansados acordam à estrela de prata, sempre, sem que se emocionem os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, para lá das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da superstição, adorar - os primeiros - Natal sobre a terra! O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não vamos amaldiçoar a vida. (A. Rimbaud)
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RIMBAUD, Arthur. Trecho do poema "Manhã". In: ______Uma Estadia no Inferno. São Paulo: Martin Claret, verão de 2005, p. 44.
(...) é pelo escândalo que principalmente se manifesta a subjetividade, o indivíduo. Indubitavelmente que o escândalo sem ser escandalizado é um pouco menos impossível de conceber que um concerto de flauta sem flautista. No entanto, até um filósofo me confessaria a irrealidade, mais ainda do que do amor, do conceito do escândalo, e que ele não se torna real senão quando há alguém, quando há um indivíduo que se possa escandalizar. Portanto, o escândalo está ligado ao indivíduo (...). (Kierkegaard, p. 111)
O que não se tem de existências desperdiçadas!, disse o filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard. Quando penso em doutrinas filosóficas ou literárias, gosto de pensar no existencialismo. Gosto de pensar no homem sob a perspectiva de Jean-Paul Sartre: "A existência precede a essência".
Existir e ser a própria essência. O que somos. Às vezes, no silêncio da noite, conseguimos existir. Conseguimos preceder nossa própria essência. É quando nos tornamos indivíduos, quando nos descobrimos subjetivos, quando encontramos nossa liberdade.
Nossa liberdade irrestrita...
... nossa condenação de sermos livres.
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KIERKEGAARD, Sören. O Desespero Humano. São Paulo: Martin Claret, inverno de 2003, p. 31 e 111.
NOTA: Sobre o existencialismo, clique aqui.