Sentia-se só. (Não consideremos isso piegas demais para iniciar uma história). Catherine não queria mais ser quem era. Olhava-se no espelho. Quem se importaria com a sua ausência? Tudo parecia estar perdido. Era uma moça comum. Não sei explicar o que significa "ser comum". Ela também não. Na verdade, Catherine não sabe que publicarei a sua história. Por isso, não posso entrar em detalhes. Deduziremos. Algo demasiadamente arriscado.
Catherine nada fizera de significativo na vida. Exceto quando aprendera a fritar ovos. Habilidade desprezível. Pensou. Ouviu dizer que "nenhuma mulher se sente suficientemente amada". Catherine era estranha. Achava-se misteriosa. Mas era uma obviedade sem fim. Todos os seus passos eram previsíveis. Gostava de ler biografias. Achava-se inteligente por isso. Pobre criatura! Não gostava de andar descalça. Mas esse detalhe não importa. Ele nada contribui para o desenrolar desta história. Esqueçamos esse pedaço!
Catherine não era uma moça bonita. Falava apenas português. Nascera numa cidadezinha qualquer. Esquecida pela geografia. E desprezada pela literatura. Na infância... Bem, desculpem-me, mas não me sinto no direito de falar sobre a sua infância. Sinto-me tentada, é verdade. Porém, um cisco de prudência tomou conta de mim. Falemos, então, sobre sua sexualidade. É menos comprometedor. Catherine não era lésbica, ao que tudo indica. Tivera poucos namorados. É verdade. (A propósito, o que significa ter poucos namorados? Como mensuramos isso? E que importância isso tem?) Vamos reconstruir: Catherine tivera quatro namorados. Não sabemos se isso é pouco ou muito. E se é pouco, é pouco em comparação a quê?
A morte não é tão horrível assim. Há algo de sublime nela. Viver é que pode ser a maior de todas as torturas. E de todas as tentações. Eu, particularmente, discordo disso. Catherine não. Certa vez, a jovem viu-se perdidamente apaixonada. Viveu intensamente essa paixão. Tempos depois, fora abandonada. Trocada pela leveza de uma noite. De um dia ensolarado. De uma vontade enorme de viver. Foi quando Catherine percebeu que nada estava sob o seu controle. Ela constatou que amar não é algo nobre coisíssima nenhuma. Eu entendo. Catherine fora movida pela decepção. Talvez não devêssemos levá-la a sério.
Catherine era órfã. De pai e de mãe. Mas não pensemos que isso é a sua grande tragédia. Não é. Por motivos de força maior (como diria um jurista), ela aprendera a se virar bem. Todos a consideravam forte, corajosa. E ela tinha raiva dessa reputação. Pra ser sincera, Catherine era uma verdadeira idiota. Reclamava de barriga cheia, como diria a minha avó. Penso que cometi um gravíssimo erro. Catherine era, sim, uma moça bonita. Ora. Deve ser péssimo ter a sua história contada por pessoas insensíveis e mesquinhas. Brutas e invejosas.
(Não adianta você dizer que esta história é desinteressante. Afinal de contas, avisei que Catherine nada fizera de significativo na vida) Para acabar logo com isso, preciso dizer que Catherine não tinha irmãos. Não tinha amigos. E não tinha mais namorado. Há tempos, não cortava os cabelos. Não ia mais ao salão. Não freqüentava mais livrarias. E não acessava mais os seus e-mails. Além disso, ela odiava alface. Engordou por conta disso. Ficou entregue.
Catherine se cansou da vida. Estava ciente de que as pessoas são sempre ridículas, egoístas, mentirosas e convenientes. Tentei convencê-la de que as pessoas são, de fato, assim. Mas que também são outras coisas melhores. Tentei fazê-la desistir do suicídio.
Não consegui.
"E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver." (p. 208)
Há coisas belas que perdemos, sem sentirmos, sequer, o seu espectro. Certas experiências, não gostaríamos de deixá-las de viver. Certas pessoas deveriam permanecer sempre conosco. Eternamente. Tudo é mesmo transitório. E não gosto dessa transitoriedade. Quer dizer, gosto. Não sei.
Para cada criatura, um mundo: grande; misterioso; particular. Até o que é óbvio, às vezes, precisa ser repetidamente dito. Nem mesmo estas minhas frases soltas, aparentemente desarticuladas, são desimportantes para mim. E nem sei o porquê dessa tolice.
Todos os dias, morre um pouco de nós. Ainda não tenho certeza dessa minha afirmação. Verdade seja escrita: estamos sempre morrendo. Nascendo. Por que o outro nos fascina tanto, se somos monstruosamente iguais? Não devemos nos abater por isso.
Estamos definhando. Não, não estamos definhando. Sou assim mesmo: contraditoriamente esperançosa. Há um tipo terrível de pobreza: quando deixamos de sentir. Há um tipo miserável de escândalo: quando acreditamos que não merecemos o outro. Só porque o outro é:
Terrivelmente belo.
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NOTA: Quem disse a frase "nem sempre estar certo é o mais importante" foi a personagem Neli, interpretada por Beth Goulart, em "Paraíso Tropical", durante diálogo entre ela e a sua filha caçula. Não sei por que, mas achei que eu devia dar os créditos para a teledramaturgia brasileira.
LISPECTOR, Clarice. Trecho do conto "Amor". In: ___ Os melhores contos de Clarice Lispector. (Seleção Walnice Nogueira Galvão). São Paulo: Global Editora, 1996.