O AMOR NATURAL
Ó TU, SUBLIME PUTA ENCANECIDA
Ó tu, sublime puta encanecida,
que me negas favores dispensados
em rubros tempos, quando nossa vida
eram vagina e fálus entrançados,
agora que estás velha e teus pecados
no rosto se revelam, de saída,
agora te recolhes aos selados
desertos da virtude carcomida.
E eu queria tão pouco desses peitos,
da garupa e da bunda que sorria
em alva aparição no canto escuro.
Queria teus encantos já desfeitos
re-sentir ao império do mais puro
tesão, e da mais breve fantasia.
(Carlos Drummond de Andrade)
Só o vento sabe sobre mim. Não adianta mais correr. O tempo não mais irá chorar, pois acabou a tempestade. Em pratos limpos, os prantos vão. Assim vem a melodia... que me convence do que é certo só aqui. As rosas que não chegam mais ao fim. Mesmo sem chuvas. Sem sol. Nada há de me impedir. Sigo os encantos desta vida. Com os cantos escuros da aparição. Os pecados que me trazem de volta... as flores. Tantas velhas rosas novas.
A espessura da solidão acompanhada. Dos riachos, dos jardins, das novas janelas. Que se abrem estampadas em nosso olhar. Sim, não vou fazer esforço pra contrariar. Seja assim como estiver. Se, por acaso, o caminho não se declarar. E nem adianta mais correr. Verdes mares. Sem agrados. Com desejos. Pele, tato e sabor. E assim sigo os encantos desta vida...
... deste delicioso inferno literário.
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ANDRADE, Carlos Drummond de. O amor natural. 16ª edição. Rio de Janeiro: Editora Record, p. 77.