BREVE MANUSCRITO DE CATHERINE

27/09/2007 - Categorias: Poema/Poesia, Contos  

Do meu lado esquerdo, há um pai segurando o filho no colo e um livro infantil nas mãos. O pai lê para o filho a historinha de Max, o carro falante, e das personagens Carolina e Beatriz. O filho, curioso, a cada frase do pai, faz-lhe uma pergunta. Eles ficam assim por algum tempo.

Eu, sentada no chão, escrevendo estas linhas, observo as pessoas em minha volta: algumas estão com os seus notebooks; outras, com as suas inquietações. Alguns lêem revistas, fazem anotações, andam de um lado para o outro. Ou, simplesmente, aguardam a hora do embarque.

O vôo está atrasado. Poucos minutos atrasados. Neste momento, tento não pensar em minhas frustrações, luto contra as lembranças, invento que estou melhor. Nada adianta. Quanto mais não quero pensar, mais penso.

Duas mulheres acabam de se conhecer no saguão do aeroporto. Elas nada sabem uma da outra. Mesmo assim, acreditam ser grandes amigas. Do outro lado, uma mulher folheia a Caras. Um senhor lê um livro de aproximadamente 150 páginas. Tentei ver o título da obra, mas não foi possível... Ah, nunca saberei o que ele estava lendo!

E eu? Eu estou do lado de cá, consciente. Consciente de meu fracasso. Às vezes, nossa vida é como um saguão de aeroporto: todos têm a expectativa de vôo, mas nem todos embarcam na hora certa...

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IMENSIDÃO

Vôo
só. Sozinha vou,
num vôo só.
Vôo
só. Sozinha vou,
num vôo só.
Céu que não é seu.
O seu é o céu.
Na imensidão de
sentir-se sol.

(Por Aline Menezes)

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DIAMANTES DE PEDAÇOS DE VIDRO

17/09/2007 - Categorias: Contos  

Sentia-se só. (Não consideremos isso piegas demais para iniciar uma história). Catherine não queria mais ser quem era. Olhava-se no espelho. Quem se importaria com a sua ausência? Tudo parecia estar perdido. Era uma moça comum. Não sei explicar o que significa "ser comum". Ela também não. Na verdade, Catherine não sabe que publicarei a sua história. Por isso, não posso entrar em detalhes. Deduziremos. Algo demasiadamente arriscado.

Catherine nada fizera de significativo na vida. Exceto quando aprendera a fritar ovos. Habilidade desprezível. Pensou. Ouviu dizer que "nenhuma mulher se sente suficientemente amada". Catherine era estranha. Achava-se misteriosa. Mas era uma obviedade sem fim. Todos os seus passos eram previsíveis. Gostava de ler biografias. Achava-se inteligente por isso. Pobre criatura! Não gostava de andar descalça. Mas esse detalhe não importa. Ele nada contribui para o desenrolar desta história. Esqueçamos esse pedaço!

Catherine não era uma moça bonita. Falava apenas português. Nascera numa cidadezinha qualquer. Esquecida pela geografia. E desprezada pela literatura. Na infância... Bem, desculpem-me, mas não me sinto no direito de falar sobre a sua infância. Sinto-me tentada, é verdade. Porém, um cisco de prudência tomou conta de mim. Falemos, então, sobre sua sexualidade. É menos comprometedor. Catherine não era lésbica, ao que tudo indica. Tivera poucos namorados. É verdade. (A propósito, o que significa ter poucos namorados? Como mensuramos isso? E que importância isso tem?) Vamos reconstruir: Catherine tivera quatro namorados. Não sabemos se isso é pouco ou muito. E se é pouco, é pouco em comparação a quê?

A morte não é tão horrível assim. Há algo de sublime nela. Viver é que pode ser a maior de todas as torturas. E de todas as tentações. Eu, particularmente, discordo disso. Catherine não. Certa vez, a jovem viu-se perdidamente apaixonada. Viveu intensamente essa paixão. Tempos depois, fora abandonada. Trocada pela leveza de uma noite. De um dia ensolarado. De uma vontade enorme de viver. Foi quando Catherine percebeu que nada estava sob o seu controle. Ela constatou que amar não é algo nobre coisíssima nenhuma. Eu entendo. Catherine fora movida pela decepção. Talvez não devêssemos levá-la a sério.

Catherine era órfã. De pai e de mãe. Mas não pensemos que isso é a sua grande tragédia. Não é. Por motivos de força maior (como diria um jurista), ela aprendera a se virar bem. Todos a consideravam forte, corajosa. E ela tinha raiva dessa reputação. Pra ser sincera, Catherine era uma verdadeira idiota. Reclamava de barriga cheia, como diria a minha avó. Penso que cometi um gravíssimo erro. Catherine era, sim, uma moça bonita. Ora. Deve ser péssimo ter a sua história contada por pessoas insensíveis e mesquinhas. Brutas e invejosas.

(Não adianta você dizer que esta história é desinteressante. Afinal de contas, avisei que Catherine nada fizera de significativo na vida) Para acabar logo com isso, preciso dizer que Catherine não tinha irmãos. Não tinha amigos. E não tinha mais namorado. Há tempos, não cortava os cabelos. Não ia mais ao salão. Não freqüentava mais livrarias. E não acessava mais os seus e-mails. Além disso, ela odiava alface. Engordou por conta disso. Ficou entregue.

Catherine se cansou da vida. Estava ciente de que as pessoas são sempre ridículas, egoístas, mentirosas e convenientes. Tentei convencê-la de que as pessoas são, de fato, assim. Mas que também são outras coisas melhores. Tentei fazê-la desistir do suicídio.

Não consegui.

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QUANDO A CHUVA PASSAR...

11/09/2007 - Categorias: Especial  

... abra a janela e veja.

Este é o meu silêncio.

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