coldness

Uns dias frios
por Aline Menezes*

No semáforo, na fila do banco, num restaurante, num café ou aguardando ser atendida em algum lugar, observo as pessoas: o casal no sábado à noite distrai-se, individualmente, nas telas de seus celulares; o pai que sai para passear com o filho não presta atenção na criança porque está entretido sozinho; a família na pizzaria não está em família, pois cada um parece estar isolado entre selfies, mensagens instantâneas, fotografias dos pedaços da pizza e muitas poses para exibir a “união sagrada”; os quatro amigos que estão na livraria, quase mudos, concentram-se em seus iPhones, sem que nenhum deles fale uns com os outros; a moça da casa lotérica me atende conferindo as mensagens que não param de chegar do WhatsApp…

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education

A culpa é de quem?
por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

É assustador saber que, no Brasil, não é ponto pacífico erradicar a pobreza, empoderando quem se encontra à margem do processo de desenvolvimento do país. É extremamente preocupante acompanhar pensamentos que defendem privilégios e ignoram direitos. Nesse sentido, Giuliana Ortega, diretora executiva do Instituto C&A, no artigo “Oportunidades na cultura de doação” (Estado de Minas, de 14/7/2006), defende uma tortuosa linha de raciocínio, a saber: “Na década passada, por exemplo, a vitalidade econômica do país e o aumento do poder aquisitivo das classes mais pobres acabaram por induzir organismos multilaterais e de cooperação, bem como as fundações internacionais, a direcionarem para outros países recursos que antes vinham para o Brasil”.

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fascism

Fora criada sozinha, só com a mãe. Tinha mais um irmão que pouco brincava com ela, pois acompanhava o pai no trabalho da roça, nas terras dos brancos. Ela e a mãe ficavam dias e dias sem ver os dois. (Conceição Evaristo em Ponciá Vicêncio)

Por quem os gritos se prostram
por Aline Menezes

A mineira e economista Dilma Rousseff, especialmente desde que assumiu o primeiro mandato na Presidência da República, sempre teve suas falas editadas e exibidas de modo debochado pelos seguidores dos comandantes fascistas. Na tentativa de silenciá-la, tentaram desqualificar os seus pronunciamentos para nos convencerem de que a chefe do País não estaria preparada para lidar com questões políticas e econômicas. No entanto, sabemos que as reais motivações por trás dessa reprovação desonesta, mediada pela atenção jocosa a seus discursos, são apenas mais um indicativo do quanto nós, mulheres, ainda temos que lutar, por exemplo, contra o sexismo e a misoginia.

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dilma rousseff

O feminismo tem tido um importante papel na demonstração de que não há e nunca houve “homens” genéricos – existem apenas homens e mulheres classificados em gêneros. [..] temos uma infinidade de mulheres que vivem em intrincados complexos históricos de classe, raça e cultura. (Sandra Harding, filósofa e feminista americana)

O valor da fala
por Aline Menezes

Debates sobre o pedido de impeachment à parte, escrevo este texto motivada por inquietações e desconfortos particulares e coletivos que me seguem há muito tempo. Isso porque vivo em um dos países mais violentos e injustos do mundo, principalmente em termos de liberdade e direitos de meninas e mulheres no Brasil.

Desde o primeiro ano do primeiro mandato em que a mineira e economista Dilma Rousseff assumiu a Presidência da República, começaram os primeiros e “pequenos” atos de violência contra a figura feminina (“e pouco feminina”) que ela representava. Na verdade, bem antes disso, já nas campanhas eleitorais…

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Louise

[…] os povos do mundo deveriam exigir que se realizem investigações e se julgue aqueles que planificam fazer a guerra no corpo das mulheres. (Rita Segato, antropóloga argentina e professora da UnB)

Ela não sabia, nem nós
por Aline Menezes

Frequento a Universidade de Brasília (UnB) desde 2003. Lá, fiz cursos de inglês, espanhol, especialização, mestrado e agora doutorado. Em pouco mais de uma década, tive a sorte de conhecer professores e colegas inteligentes, adoráveis e íntegros, mas também tive a infelicidade de deparar com professores e colegas asquerosos, repugnantes, não apenas pela arrogância e (acreditem!) ignorância deles, mas porque alguns manifestam comportamentos bastante agressivos, desvirtuados e, na minha opinião, psicopáticos.

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poetic

Querer-se livre é também querer livres os outros. (Simone de Beauvoir)

Poéticas contemporâneas
por Aline Menezes

O poeta baiano Damário da Cruz (1953-2010) escreveu certa vez que “a vida dura menos que um poema”. Em “Gran finale”, ele se despede do mundo com a certeza de que aquele seria o seu último verso e transforma a ameaça da sua própria morte em poesia, expondo por meio da linguagem o modo com o qual ele saiu de cena.

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stupidity

A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele… (Hannah Arendt)

Vamos celebrar a nossa estupidez
por Aline Menezes

Na ausência de bons argumentos, de raciocínios que realmente sejam fruto de reflexões aprofundadas sobre os fatos e que não sejam reproduções falsificadas do senso comum, parece natural que uma das primeiras manifestações das pessoas – quando estão diante de debates “polêmicos” – seja a tentativa de desqualificar ou desvalorizar lutas legítimas como, por exemplo, a dos movimentos negros, feministas e LGBT.

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son

O opressor não seria tão forte, se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos. (Simone de Beauvoir)

O filho que eu não gostaria de ter
por Aline Menezes

Para a pergunta comum e equivocada sobre se eu gostaria de ter um filho gay: em primeiro lugar, não entendo a homossexualidade como desvio de conduta, safadeza, vergonha, anormalidade ou condição desprezível de existência… Entendo-a da mesma maneira que percebo a heterossexualidade. Portanto, não encontro na questão nenhuma razão para que eu “tivesse medo” de ter um filho ou uma filha que se manifestasse sexualmente diferente de mim.

Discordo de todos aqueles que tentam marginalizar a expressão sexual alheia porque ela não está ajustada ao comportamento heteronormativo. Até porque o que me interessa nas pessoas não é a sexualidade delas, mas o seu caráter, a sua inteligência e a sua capacidade de respeitar a vida do outro e de intervir no mundo de maneira lúcida, honesta, justa e benéfica.

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Women’s Day 2015

ENSAIO

8 de março: conquistas e controvérsias
Por Eva Alterman Blay

[…] No Brasil, vê-se repetir a cada ano a associação entre o Dia Internacional da Mulher e o incêndio na Triangle, quando na verdade Clara Zetkin o tenha proposto em 1910, um ano antes do incêndio. É muito provável que o sacrifício das trabalhadoras da Triangle tenha se incorporado ao imaginário coletivo da luta das mulheres. Mas o processo de instituição de um Dia Internacional da Mulher já vinha sendo elaborado pelas socialistas americanas e européias há algum tempo e foi ratificado com a proposta de Clara Zetkin. […]

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fundamentalism

Fundamentalismos e liberdades
Por Alexandre Pilati*

Como é possível alguém alegrar-se com o mundo,

a não ser quando se refugia nele?

Franz KafkaAforismos.

O dia 07 de janeiro de 2015 será lembrado pelo terror que mais uma vez golpeou duramente a humanidade. A cidade de Paris confrontou-se nesta data com a violência paroxística de um ataque que deixou 12 pessoas mortas e mais uma dezena de feridos, alvejados na sede do semanário francês Charlie Hebdo. O atentado foi o pior ocorrido na cidade desde 1961, quando ativistas de extrema direita, contrários à independência da Argélia, explodiram uma bomba na linha de trem entre Estrasburgo e Paris, matando 28 pessoas. No ataque ao Charlie Hebdo, homens encapuzados e armados com devastadores fuzis Kalashnikov, supostamente agindo em honra da Guerra Santa Islâmica, mataram alguns dos mais reconhecidos cartunistas e jornalistas da França, entre eles o editor da revista Stéphane Charbonnier (o Charb), Jean Cabut, Georges Wolinski, Bernard Maris, Bernard Verlhac (o Tignous).

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